Moisés edificou um altar (15), e o chamou: O SENHOR é minha
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bandeira (JEOVA-Nissi). Este seria um sinal de que os amalequitas, que
tinham posto “uma mão na bandeira do Senhor” (16, RSV), estariam sob julgamento de Deus até serem destruídos.
O povo de Deus fora atacado por um inimigo de Deus; portanto, guerra ininterrupta seria a sentença dessa gente. O rei Saul foi punido porque não executou a ordem de Deus para destruir os amalequitas (1 Sm 15). A total aniquilação deste povo ocorreu nos dias de Ezequias (1 Cr 4.41-43). Na presciência de Deus, vemos a impenitência contínua deste povo violento e bélico. A rivalidade das nações resulta em julgamento feito pelo Único que redunda em seu louvor a ira do homem (SI 76.10). Repetidas vezes nas Escrituras, verificamos que o pecado — quer pessoal ou nacional — é autodestrutivo.
5. A Visita de Jetro (18.1-27)
a) A chegada de Jetro (18.1-5). Jetro, sacerdote de Midiã, sogro de Moisés (1:
ver comentários em 2.18), ficou sabendo por meios indiretos o que Deus fizera a Israel. Zípora, a mulher de Moisés (2), tinha voltado para a casa dos pais depois do começo da viagem ao Egito (4.18-26) e lá permaneceu até que Israel chegou a Horebe. Os dois filhos (3) de Moisés nasceram quando ele morava com o sogro em Midiã (2.22; 4.25) e haviam ficado com a mãe. O primeiro filho tinha o nome de Gérson, porque Moisés era peregrino em terra estranha. O segundo filho foi chamado Eliezer (4), porque Moisés ficou livre da espada de Faraó (2.15). Não se sabe de que idade eram nesta ocasião: talvez fossem bastante jovens ou tivessem quase quarenta anos, visto que Moisés permaneceu em Midiã por 40 anos (ver At 7.23,30).
Pelo visto, Jetro chegou justamente quando Israel se aproximava da vizinhança do monte Sinai, chamado o monte de Deus (5; cf. 3.1; 17.6; e 19.1), pouco depois da derrota dos amalequitas, mas antes de chegarem ao monte Sinai.
b) O relato de Moisés a Jetro (18.6-8). O versículo 6, em vez de ser um discurso de •Jetro feito diretamente a Moisés, foi provavelmente uma mensagem enviada a Moisés ou uma informação prestada por terceiros acerca da chegada de Jetro (cf. ARA). Ao ser informado, saiu Moisés ao encontro de seu sogro (7). De acordo com o costume oriental, Moisés
inclinou-se (“curvou-se em sinal de respeito”, NTLH) e beijou seu sogro.
A relação entre estes homens sempre foi de alto respeito. Sempre procuravam o bem um do outro em tudo.
Moisés relatou a Jetro todas as coisas que o SENHOR tinha feito por
Israel e como o Senhor dera vitória sobre Faraó e os egípcios (8). Foi cuidadoso em dar a Deus toda a glória e não tomar nada para si. Também contou sobre as adversidades que lhes ocorrera ao longo do caminho e como o SENHOR os livrara.
c) O elogio de Jetro (18.9-12). Para um homem como Jetro alegrar-se ao ficar sabendo dessas ocorrências indica coração aberto diante do SENHOR (9). As nações são reputadas inimigas de Deus, e mais tarde os midianitas o foram (Nm 35). Deus não considerava os egípcios, os amalequitas ou os outros povos seus inimigos apenas porque não eram israelitas; uma nação era má porque as pessoas que a compunham eram más. Porém, é freqüente Deus ter filhos vivendo entre povos que são maus. Quando Deus encontrava um justo como Jetro Ele o honrava (cf. Melquisedeque,
Gn 14.18-20; Abimeleque, Gn 20.6; e Jó, Jó 1.1,8).
Desconhecemos o quanto Jetro sabia sobre o Deus de Israel antes desta ocasião. Seus antepassados eram descendentes de Abraão. Ele era “sacerdote” (cf. v. 1) e, por conseguinte, religioso. Moisés vivera com ele 40 anos, mas isto foi antes da experiência da sarça ardente. Pelo menos o coração de Jetro era sincero. Quando ficou sabendo das ações do Senhor,
disse: Bendito seja o SENHOR (10, Yahweh), e, assim, identificou o
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Deus da vitória de Israel. E verdade que disse que o Senhor era maior que todos os deuses (11), em vez de dizer que era o único Deus. Contudo, esta linguagem é semelhante à que Salomão expressou na dedicação do Templo (2 Cr 2.5) e à que o salmista usou para louvar (SI 135.5). A concepção que Jetro tinha dos outros deuses era a oposição que faziam ao Senhor (11). Portanto, eram espíritos malignos. A última parte do versículo 11 tem também esta tradução: “[O SENHOR] livrou este povo de debaixo da mão dos egípcios, quando agiram arrogantemente contra o povo” (ARA). As palavras agora sei indicam que Jetro inteirou-se de algo novo e significam que neste momento ele se converteu a Jeová.08
A devoção religiosa de Jetro o moveu a fazer holocausto e sacrifícios para Deus 12). Arão e os anciãos de Israel uniram-se na ocasião e
comungaram com Jetro. Uniram-se na adoração do mesmo Deus, a despeito da diferença de nacionalidade e cultura. Jetro não se tornou israelita, mas tornou-se um com Israel em seu amor por Jeová.
d) O conselho de Jetro (18.13-23). No dia seguinte, Jetro observou Moisés julgar o povo (13). Moisés exercia a plena função de juiz para estes dois milhões ou mais de pessoas, sem dividir a responsabilidade com os outros. Jetro questionou a sabedoria de Moisés em servir só (14) e manter as pessoas esperando o dia todo para terem seus casos resolvidos.
Moisés apresentou suas razões (15,16) para fazer o trabalho assim: 1) Ele buscava a vontade de Deus para resolver as questões, e 2) aproveitava a ocasião para ensinar ao
povo os estatutos de Deus e as suas leis. Considerando que ele era o único com quem Deus dava sua palavra, ele achava necessário agir diretamente com as pessoas em relação a todos os problemas.
Mas Jetro não ficou satisfeito com estas explicações. O que Moisés estava fazendo não era bom (17). Mesmo um homem de sua força não podia esquecer que era humano e se cansaria (18) com este tipo de procedimento. Jetro disse: Tu só não o podes fazer. Moisés deveria saber acerca disso, mas ele, como tantos outros, precisava de um amigo para lhe mostrar. Este método não só era trabalhoso em si, mas também causava dificuldades para as pessoas que eram forçadas a esperar na fila.
Não podemos deixar de admirar a cortesia e coragem de Jetro. Quem teria a ousadia de corrigir um homem que, sob a direção de Deus, trouxera pragas ao Egito, abrira o mar, arranjara água e pão no deserto e liderava mais de dois milhões de pessoas? Moisés, que recebia ordens diretamente de Deus, agora tinha de ouvir uma mensagem de Deus para ele. Jetro não negou a posição de Moisés como porta-voz de Deus; ele ainda estaria pelo povo diante de Deus (19), quer dizer, representaria o povo perante Deus (ARAj. Também continuaria sendo tarefa de Moisés ensinar os estatutos e as leis (20) e dirigir o povo no caminho em que deveriam andar e no que deveriam fazer.
Contudo, para cumprir sabiamente os propósitos de Deus, Moisés deveria escolher homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza, e colocá-los sobre o povo por maiorais de mil, de
cem, de cinqüenta e de dez (21i. Talvez estes números se refiram a
famílias e não a pessoas.59 Os homens serviriam na função de juizes de tribunal inferior e tribunal superior, cada líder de grupo menor responsável a quem estava acima dele. Quem não estivesse satisfeito com uma sentença de instância inferior poderia apelar para um tribunal superior.
Isto significaria que inumeráveis sentenças não chegariam a Moisés (22).
Ficamos imaginando por que Moisés não implementara esse processo antes ou usara um plano semelhante. Ele já tinha anciãos e príncipes que representavam o povo em diversas ocasiões. Os conceitos eram famosos no Egito e Jetro conhecia este tipo de organização.60 As qualificações para estes juizes eram sensatas; tinham “de se preocupar somente com a aprovação de Deus e não com a dos homens, ser imparciais nos veredictos e refratários a subornos” (21).61
Jetro teve o cuidado de reconhecer a autoridade do homem com quem falava. Seu desejo era que fosse resolução de Moisés: Se isto fizeres (23). Também não desconsiderava o fato de que Moisés agia sob autoridade divina: E Deus to mandar. Se Moisés visse o bom senso neste método e Deus o dirigisse em sua execução, então ele suportaria o cargo e o povo teria paz.
e) A implementação do novo plano (18.24-27). Moisés percebeu a praticabilidade e sensatez do plano sugerido por Jetro e fez tudo quanto tinha dito (24). Supomos que Moisés buscou e obteve a permissão de Deus para praticar este método. Escolheu os homens necessários e os pôs por cabeças sobre o povo (25). Estes homens eram maiorais e julgavam o povo em todo tempo (26). Os assuntos mais difíceis traziam a Moisés, mas cuidavam das questões menores.
Em Deuteronômio 1.9-18, Moisés narrou detalhadamente a nomeação destes juizes, ali chamados “capitães” e “governadores”. Foram nomeados na ocasião em que Israei
estava a ponto de deixar o monte Sinai após o recebimento da lei. Naquele texto, temos a impressão de que as pessoas tinham voz ativa na escolha dos capitães e governadores (Dt 1.13). Esta informação pode significar que, embora Jetro desse o conselho antes do monte Sinai e do recebimento da lei, a organização só foi implementada em sua totalidade quando Israel
estava pronto para prosseguir viagem.62
0 ministério de Jetro estava concluído. Moisés o despediu para sua terra (27). Pelo visto, Zípora e seus filhos ficaram com Moisés.
Encontramos nos versículos 13 a 23 “As Qualificações para Líderes”. 1) Humildade no aconselhamento, 13-17; 2) Reconhecimento da fraqueza humana, 18; 3) Preocupação pelo melhor de Deus, 19,20,23; 4) Integridade de caráter, 21,22; 5) Boa vontade em obedecer, 24-26.
As Festas da Comemoração (12.14-20)
Este dia, o décimo quarto do mês de abibe, foi separado por Deus como estatuto perpétuo (14) para Israel. Era uma lembrança anual da grande libertação do Egito. Tinha de ser celebrada para sempre. Só em Cristo esta ordenação foi verdadeiramente cumprida eternamente. Os cristãos celebram a Ceia do Senhor, o memorial pelo Cordeiro de Deus que foi morto. Esta prática continuará até que seja observada de novo no Reino de Deus (Mt 26.29).
A Festa da Páscoa ocorria imediatamente antes da Festa dos Pães Asmos (17). Não é preciso considerar que os versículos 15 a 20 foram acrescentados em instituição posterior desta festa.8 A estreita ligação com a Páscoa tornou esta festa parte essencial da primeira ocorrência. Os israelitas não tinham pão fermentado na Páscoa, e por causa da pressa em partir não tiveram tempo para prepará-lo. Também deixaram o fermento, símbolo do Egito.9
A Festa dos Pães Asmos durava sete dias, começando no dia seguinte à Páscoa. No primeiro e no último dia da festa haveria santa convocação (ajuntamento sagrado), nos quais não se trabalhava (16). Estes dois dias não eram sábados no sentido exato da palavra, mas dias de adoração. A festa era uma lembrança do êxodo, a saída do Egito. Exércitos (17), melhor “hostes” (ARA).
Morte no Egito (12.29-36)
meia-noite (29). Em vez de “serva” (11.5), que foi mencionada como a condição social
mais baixa na profecia, agora diz o cativo que estava no cárcere. Talvez houvesse
pouca diferença em termos de posição social entre eles.
Como Deus predissera, todos os primogênitos na terra do Egito foram feridos à
Faraó deve ter sabido que ocorrería esta praga, porque Moisés lhe falara (11.4,5),
mas seu coração duro o cegou para as coisas sobre as quais não deveria ter dúvida.
Porém, quando se deu a calamidade, não houve escusa da verdade — os primogênitos
estavam mortos. Ocorreu um grande clamor; em toda casa havia um filho morto (30).
Enquanto ainda era noite, Faraó chamou a Moisés e a Arão e ordenou — não só lhes
Êxodo 19.1—24.18
Os israelitas chegaram ao lugar onde Deus queria fazer deles uma comunidade religiosa peculiarmente sua. Os meses “no monte Sinai realizaram duas coisas: 1) Israel recebeu a lei de Deus e instruções sobre o caminho de Deus; e 2) a multidão que saiu do Egito unificou-se no início de uma nação”.1 Este período é de grande importância para compreendermos a vontade de Deus revelada no cerne da lei.
As teorias críticas do século XIX, que negavam a existência do Tabernáculo e tornavam a maioria destas leis mero reflexo de costumes vigentes em séculos posteriores, foram amplamente abandonadas nos últimos anos.
Hoje em dia, a maioria dos estudiosos admite que o âmago destas leis foi dado no monte Sinai por Moisés. Quem advoga que a lei é a revelação de Deus aceita que sua forma atual é substancialmente o teor recebido por Moisés. Mesmo quando os críticos negam esta idéia, não conseguem entrar em consenso sobre quais leis são mais recentes.2
A. O Concerto Proposto por Deus, 19.1-25
1. A Apresentação do Concerto no Monte Sinai (19.1-8)
No terceiro mês depois da saída do Egito, os filhos de Israel chegaram ao deserto do Sinai (1; ver Mapa 3). A tradição judaica afirma que o dia foi o Pentecos-tes e que a Festa de Pentecostes comemorava o recebimento da lei. Porém, a expressão hebraica no mesmo dia não é suficientemente específica para indicar um dia exato.3
O relato da rápida resposta de Samuel ao que ele julgou ser a voz de Eli, e o reconhecimento de Eli de que Deus falava com o rapaz, é uma das histórias favoritas do Antigo Testamento. Samuel ainda não conhecia o Senhor (7) - em hebraico, yada, “conhecer”, significa mais que o conhecimento intelectual (cf. comentário sobre 2.11). Implica em conhecimento pessoal. Até agora, Deus não tinha aparecido a Samuel com visões proféticas, embora o Senhor o preparasse para o lugar que deveria ocupar.
Em resposta às palavras de Samuel, Fala, Senhor, porque o teu servo
ouve (910), ao quarto chamado do Senhor, Deus disse as suas primeiras palavras proféticas ao jovem. A esta altura nós podemos perceber a disposição para ouvir como uma condição para as palavras posteriores de Deus (cf. At 26.14-18). Aparentemente, houve algum tipo de aparição visual, pois o texto afirma, veio o Senhor, e ali esteve (10) - em hebraico, yatsab, “esteve”, tipicamente quer dizer “apresentar-se perante”8. A mensagem era similar àquela trazida pelo homem de Deus, sem referência de nome, em 2.27-36, exceto que anunciava a proximidade da época do julgamento na casa de Eli. Vou eu a fazer (11) significa literalmente: “Eu estou fazendo”. Os acontecimentos já naquela ocasião modelavam aquilo que proporcionaria o cumprimento das predições feitas previamente. Inúmeras traduções posteriores trazem “Eu irei fazer”. Tinirão ambas as orelhas (11) era uma expressão comum que significava ouvir com horror e medo (cf. 2 Rs 21.12; Jr 19.3).
“Ouvindo o Chamado de Deus” é o tema dos versículos 1-10. As principais verdades são: (1) Deus está em silêncio quando a Sua Palavra não é conhecida, 1; (2) O chamado de Deus pode ser confundido, 2-7; (3) A Palavra de Deus é transmitida quando os seus servos ouvem, 8-10.
Como havia sido anunciado previamente, Eli deve compartilhar do destino dos seus filhos pecadores, embora ele mesmo tenha sido um homem virtuoso. O seu pecado foi não usar a sua autoridade para interromper ou pelo menos conter a conduta sacrílega dos dois, apesar de saber o que eles faziam de errado (13). Fazendo-se... execráveis - a Septuaginta diz “blasfemaram Deus”. O problema tinha ultrapassado o “ponto sem retorno”, isto é, já era irreversível, e nem sacrifício nem oferta de manjares (14) poderíam repará-lo. A repetição das palavras para sempre (13-14) indica a terrível certeza das ações poderosas de Deus. Parece que o primeiro aviso (2.27-36), embora expresso em um futuro absoluto, tinha o objetivo de ocasionar uma mudança na atitude de Eli com relação aos seus filhos (cf. o aviso de Jonas a Nínive, 3.4, e os seus resultados, 3:10, 4.12). Mas existe um fim definitivo para a rebelião impenitente, e um pecado para a morte, e para esse não há oração (1 Jo 5.16).
Somente com o firme pedido de Eli na manhã seguinte Samuel revelou-lhe a natureza da mensagem que o Senhor tinha dado. Existe algo de patético e ainda assim nobre na maneira humilde como o sumo sacerdote aceita as tristes notícias de Samuel (18)9.
O crescente reconhecimento, entre o povo de Israel, de que o Senhor estava com Samuel e fazia dele o Seu porta-voz, está indicado em 19-21. Cair em terra (19), isto é, “deixar de ocorrer, ou ser provada errada”. Desde Dã até Berseba (20) é a típica maneira de descrever “a extensão e a amplitude da terra” (cf. Jz 20.1). Dã estava no extremo norte, Berseba era o ponto mais ao sul.
Profeta do Senhor (20). O registro de Atos 3.24: “E todos os profetas, desde Samuel, todos quantos depois falaram, também anunciaram estes dias”, indica que Samuel foi o primeiro de uma nova ordem ou linhagem de profetas. A palavra nabi (provavelmente de compromisso, mas as promessas podem ser sinceras e nos lembrarão da responsabilidade assumida. Se as pessoas tomarem decisões sem este temor religioso, seguirão o caminho da incredulidade.
Emoção religiosa não é coerção. Estas pessoas eram livres para aceitar ou rejeitar as propostas de Deus. O Senhor não força os homens a fazer um concerto com Ele, mas cria a atmosfera que possibilita a escolha favorável. Sem haver primeiro o trabalho de Deus, o homem nunca reage favoravelmente.
2. A Santificação do Povo (19.9-15)
O povo precisava se aprontar para desfrutar a maior experiência da vida humana — ouvir a voz de Deus. O Senhor disse a Moisés três coisas: Eis que eu virei a ti numa nuvem espessa; o povo ouvirá, falando eu contigo; e te crerá etemamente (9). Alguns israelitas recusaram reconhecer Moisés como porta-voz de Deus; quando passavam por dificuldades, muitos em Israel hesitavam em confiar no servo de Deus. Apesar de tudo que Moisés dissera e fizera, os descrentes ainda afirmavam que era só a voz dele e que ele fazia mágicas. Mas agora estas pessoas “veríam” Deus na nuvem espessa e ouviríam a voz de Deus sem intermediários. Assim, Deus autenticaria as palavras de Moisés.
De muitas formas é mesmo impossível acreditar que as palavras que uma pessoa fala são as palavras de Deus até ouvirmos pessoalmente Deus nos falar sem rodeios. Pelo que entendemos, os israelitas ouviam um som que não era a voz de Moisés, através do qual eles reconheciam Deus falando com eles (20.1; ver Dt 4.11,12). Para a maioria dos cristãos, a voz de Deus é ouvida pela voz do Espírito Santo no coração (Rm 8.16). Quando sua voz
é ouvida, então a palavra de Deus através do homem, audível ou escrita, torna-se meio de fé. Ainda vigora a promessa relativa às pessoas que crêem em Moisés etemamente, visto que cristãos e judeus consideram Moisés o porta-voz de Deus.
Para que Israel estivesse preparado para ouvir Deus diretamente, Moisés tinha de santificá-los hoje e amanhã (10). Esta santificação exterior, símbolo da pureza interior que só Deus dá (cf. comentários em 13.2), levaria dois dias inteiros. A limpeza externa abrangería: 1) Lavar o corpo,
2) lavar as roupas e 3) abster-se de relações sexuais.1 Mesmo depois desta santificação, o povo tinha de ficar separado do monte por limites (12), ou cercas, para que nenhum homem ou animal tocasse o monte. Se tocasse, seria morto imediatamente. Se pessoa ou animal transpusesse a cerca, ninguém deveria tocar nessa pessoa ou nesse animal (13; cf. NTLH), pois fazer isso significaria toque direto no monte. Tal ofensor deveria ser morto a pedradas ou flechadas.
Todos estes regulamentos tinham a função de ensinar ao povo a necessidade de santidade, a qualidade impressionante de Deus, e a exigência de absoluta obediência a Deus. A desatenção era intolerável; até um animal inocente teria de morrer se o dono não o mantivesse afastado do monte. Deus descería diante dos olhos (11) do povo, mas este não deveria presumir intimidade com Ele. O caminho ainda não estava aberto para as pessoas irem à presença de Deus com ousadia (Hb 4.16).
Embora no versículo 12 haja a proibição de subir o monte, algumas pessoas tinham a permissão de subir quando a buzina (13) soasse longamente. Pelo que deduzimos, as pessoas mencionadas no versículo 13 pertencem a um grupo especial; em outro momento, Moisés, os sacerdotes e os setenta anciãos (24.1,2) tiveram permissão de subir.11 Mesmo assim, deveríam subir depois de ouvirem a buzina. O versículo alude ao ajuntamento de pessoas quando Deus estava prestes a falar,12 embora o original hebraico signifique mais que isso. O sentido dos versículos 16 e 17 favorece a opinião de que a buzina chamava Israel do acampamento para o pé do monte. Por isso, Moisés... santificou o povo (14; cf. comentários em 13.2).
3. Deus no Monte Sinai (19.16-25)
Com todas essas preparações e avisos, o povo estremeceu (16) quando
Deus manifestou sua presença. Chegara o momento de verem Deus, assim os israelitas puseram-se ao pé do monte (17). A experiência tinha o propósito de criar um verdadeiro temor de Deus nas pessoas e prepará-las para respeitar a lei de Deus.
Além dos trovões e relâmpagos (16) e do sonido de buzina mui forte,
a montanha estava em chamas; subia fumaça do fogo, como fumaça de um forno, e todo o monte tremia grandemente (18). Fumegava é
melhor “estava coberto de fumaça” (NVI). Até Moisés tremeu de medo com a visão (Hb 12.21). Apesar de todo esse medo, com o clangor cada vez mais longo e forte da buzina, Moisés falava, e Deus lhe respondia em voz alta (19). A mesma voz que ele ouvira na sarça ardente agora falava do monte em som claro e apavorante que todos ouviam.
Chamou o SENHOR a Moisés (20) para subir ao monte, ação proibida para os outros, e Moisés subiu. Quase imediatamente, Deus mandou Moisés de volta para reforçar o aviso para o povo não traspassar os limites do monte santo (21). Os sacerdotes, que se chegam ao SENHOR (22), receberam uma mensagem especial. Quanto a santificar, ver os comentários no versículo 10 e em 13.2. Estas pessoas não eram os levitas, que ainda não tinham sido separados; eram provavelmente os primogênitos que exerciam funções sacerdotais (ver 24.5).13 Talvez conjeturaram que tinham tanto direito quanto Moisés de subir ao monte. Deus conhecia suas intenções, por isso ordenou que Moisés voltasse para evitar uma catástrofe. O SENHOR lançar-se sobre eles seria na forma de praga, ou com fogo ou morte direta, como no caso de Uzá (2 Sm 6.7,8).
Moisés, desconhecedor das possíveis intenções do povo, lembrou Deus que todas as precauções foram tomadas e que ninguém subiria involuntariamente o monte Sinai 123). Mas Deus sabia mais que Moisés; o servo do Senhor tinha de falar novamente para o povo que somente ele e Arão (24) poderíam subir. Aqui Deus está deixando claro que Ele escolhe quem quer, e que outros têm de permanecer em sua vontade. Também é importante discernir a voz de Deus e segui-la, mesmo quando achamos que não há perigo. Deus conhece os corações dos homens e as pessoas não. Quanto a santifica-o (23), ver comentários em 13.2. Moisés (25) obedeceu, evitando assim uma tragédia.
“A Santidade de Deus”, revelada no capítulo 19: 1) Requer santidade em
quem se aproxima de Deus, 5,6,10,11; 2) Separa Deus de todas a suas criaturas, 12,13; 3) Manifesta a presença de Deus em majestade aterrorizante, 16-20; 4) Comunica-se com os pecadores, 7-9,21-25.
B. Os Dez Mandamentos, 20.1-17
Deus falou (1) com o povo do monte em chamas. O texto em Deuteronômio declara nitidamente que Deus “no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridade, com grande voz” (Dt 5.22) deu estes mandamentos para a assembléia. Não sabemos como Deus falou em voz audível, mas Israel entendia que a voz que ouviam era de Deus. Esta era “uma voz audível e terrível, a voz de Jeová, soando como trombeta pela multidão (19.16: 20.18)”.14 Este modo de descrever o evento não indica que Deus tenha cordas vocais como o homem, mas assevera que Deus criou um som audível que, de forma inteligível, enunciava suas palavras para o homem. Depois que ouviram aquela voz, preferiram que Moisés (19) lhes falasse.
E importante saber que era o SENHOR, teu Deus (2), que estava falando. Nos dias de hoje, quando se fala em “nova moralidade” e quando há teólogos que anunciam que “Deus está morto”, precisamos saber onde está a autoridade divina. Estas palavras foram ditas por Deus ao povo como normas orientadoras para toda a humanidade. Não basta afirmar que são pertinentes apenas para a época em que foram dadas. “Deus queria que os israelitas entendessem claramente que fora Ele mesmo que lhes dera os mandamentos.”15
Além disso, as pessoas ouviram todas estas palavras (1). No original hebraico, os Dez Mandamentos são chamados “dez palavras” (34.28; Dt 4.13; 10.4; daí o título Decálogo. lit., “dez palavras”). Estes dizeres não foram copiados do Egito ou de outras nações, como alguns suspeitam. “As declarações do monte Sinai são nobres e inteiramente diferentes de qualquer coisa encontrada em todo o conjunto da literatura egípcia.”16
Deus deu estas palavras não como meio de salvação, porque este povo já estava salvo do Egito, mas como norma de conduta. Levando em conta que a obediência era uma cláusula para a continuação do concerto (19.5), estas palavras se tornaram a base de perseverança na qualidade de povo de Deus. Paulo deixou claro que a observância da lei não é meio de salvação pessoal, pois a justificação é pela fé em Cristo (G1 2.16). A lei conduz a
Cristo, mas não salva (G1 3.24). “Se não é verdade que podemos cumprir a lei para ganhar o céu, é igualmente falso que podemos quebrá-la sem sermos punidos ou sentirmos remorso.”17 Deduzimos que esta lei moral foi dada como fundamento providencial para a fé do povo de Deus. Quem o ama observa sua lei.
Dividir a lei em lei moral, lei cerimonial e lei civil é, por um lado, útil, e, por outro, enganoso. Lógico que a lei moral do Decálogo é básica e expressa a responsabilidade de todos os homens. Mas as outras leis dadas a Israel também eram igualmente obrigatórias. As leis de Deus eram demonstração de sua justiça por meio de símbolos e forneciam uma disciplina pela qual os israelitas poderiam ser conformados à santidade de Deus." As leis sociais e cerimoniais mudam, mas as relações fundamentais entre Deus e o homem, e entre os homens, conforme exaradas no Decálogo, são eternas.
A divisão dos Dez Mandamentos é entendida de modos variados. Seguindo Agostinho, a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Luterana consideram os versículos 2 a 6 o primeiro mandamento e dividem o versículo 17, que trata da cobiça, em dois mandamentos. O judaísmo hodierno reputa que o versículo 2 ordena a crença em Deus e é a primeira palavra; e combina os versículos 3 a 6 na segunda. A divisão aceita nos primórdios da igreja torna o versículo 3 o primeiro mandamento e os versículos 4 a 6 o segundo. Esta posição foi “apoiada por unanimidade pela igreja primitiva, e é mantida hoje pela Igreja Ortodoxa Oriental e pela maioria das igrejas protestantes”.19
Os primeiros quatro mandamentos compõem a primeira tábua do Decálogo e mostram a relação apropriada do homem com Deus. Têm seu cumprimento no primeiro grande mandamento: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento” (Mt 22.37). Os últimos seis mandamentos lidam com as relações humanas e cumprem-se no amor ao próximo como a si mesmo.
1. O Primeiro Mandamento: Não Ter Outros Deuses (20.3)
O versículo 2 é a introdução do primeiro mandamento. Deus identifica quem tirou os filhos de Israel da servidão egípcia: O SENHOR. Visto que ele os libertara e provara que era supremo, eles tinham de torná-lo seu Deus. Não havia lugar para competidores. Todos os outros deuses eram
falsos.
Diante de mim (3) significa “lado a lado comigo ou além de mim”.20 Deus não esperava que Israel o abandonasse; Ele sabia que o perigo estava na tendência de prestar submissão igual a outros deuses. Este mandamento destaca o monoteísmo do judaísmo e do cristianismo.
“O primeiro mandamento proíbe todo tipo de idolatria mental e todo afeto imoderado a coisas terrenas e que podem ser percebidas com os sentidos.”21 Não existe verdadeira felicidade sem Deus, porque Ele é a Fonte de toda a alegria. Quem busca alegria em outros lugares quebra o primeiro mandamento e acaba na penúria e em meio a acontecimentos trágicos.
2. O Segundo Mandamento: Não Fazer Imagens (20.4-6)
“Como o primeiro mandamento afirma a unidade de Deus e é um protesto contra o politeísmo, assim o segundo afirma sua espiritualidade e é um protesto contra a idolatria e o materialismo.”22 Embora certas formas de idolatria não sejam materiais — por exemplo, a avareza (Cl 3.5) ou a sensualidade (Fp 3.19) —, o segundo mandamento condena primariamente a fabricação de imagens (4) na função de objetos de adoração. Este tipo de idolatria sempre existiu entre os povos pagãos mais simplórios do mundo.
A história de Israel comprova que esta tentação é traiçoeira.
Estas imagens pagãs eram feitas na forma de coisas vistas no céu, na terra e nas águas. Estas imagens não deveriam se tornar objetos de adoração: Não te encurvarás a elas (5). Os versículos 4 e 5 devem ser considerados juntos. Não há condenação para a confecção de imagens, contanto que não se tornem objetos de veneração. No Tabernáculo 25.31-34) e no primeiro Templo (1 Rs 6.18,29) havia obras esculpidas. A idolatria consiste em transformar uma imagem em objeto de adoração e atribuir a ela poderes do deus que representa. Se considerarmos que gravuras ou imagens de pessoas possuam poderes divinos e que sejam adorados, então elas se tornam ídolos.
Deus apresentou os motivos para esta proibição. Ele é Deus zeloso, no sentido de que não permite que o respeito e a reverência devidos a Ele sejam dados a outrem. Deus não regateia o sucesso ou a felicidade para as pessoas, como faziam os deuses gregos. E para o bem dos filhos de Deus que eles devem consagrar e reverenciar o nome divino.23
Deus pune a desobediência (5) e recompensa a obediência (6). Muitos questionam o julgamento nos filhos de pais ofensores, mas tais julgamentos são temporários (ver Ez 18.14-17) e aplicam-se às conseqüências, como, por exemplo, doenças, que naturalmente seguem as más ações. O medo de prejudicar os filhos deveria exercer coibição salutar na conduta dos pais. As perdas que os filhos sofrem por causa da desobediência parental podem levar os pais ao arrependimento. Na pior das hipóteses, a pena vai até à terceira e quarta geração, ao passo que a misericórdia é mostrada a mil gerações quando há amor e obediência.
3. O Terceiro Mandamento: Não Tomar o Nome de Deus em Vão (20.7)
Tomar o nome do SENHOR, teu Deus, em vão é “recorrer ao irrealismo, ou seja. servir-se do nome de Deus para apelar ao que não é expressão do caráter divino”.24 Tal uso profano do nome de Deus ocorre no perjúrio, na prática da magia e na invocação dos mortos. A proibição é contra o falso juramento e também inclui juramentos levianos e a blasfêmia tão comum em nossos dias. “Este mandamento não obsta o uso do nome de Deus em juramentos verdadeiros e solenes.”26
Deus odeia a desonestidade, e é pecado sério alguém usar o nome divino para encobrir um coração mau, ou para se fazer melhor do que se é. A pessoa que procura disfarçar uma vida pecaminosa, ao mesmo tempo em que professa o nome de Cristo, quebra este terceiro mandamento. Tais indivíduos são culpados diante de Deus (7) e só recebem misericórdia depois de se arrependerem. Os justos veneram o nome de Deus por ser santo e sagrado.
4. O Quarto Mandamento: Santificar o Sábado (20.8-11)
O uso do verbo lembra-te (8) insinua que é fácil negligenciar o dia santo de Deus. Tinha de ser mantido em ininterrupta consciência e santificado, ou seja, “retirado do emprego comum e dedicado a Deus” (ATA). Todo o trabalho comum seria feito em seis dias (9), ao passo que o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus (10). Era um dia dedicado, separado, a ser dado inteiramente a Deus.
Ninguém deveria trabalhar neste sétimo dia. O senhor não deveria fazer seus servos trabalharem. Até os animais tinham de descansar do trabalho cotidiano. Havia proibições específicas, como a ordem de não colher maná
(16.26), não acender fogo (35.3), não apanhar lenha (Nm 15.32-36).
Embora o foco seja negativo, a lei permitia o trabalho necessário, como o trabalho de sacerdotes e levitas no Templo, o atendimento a doentes e o salvamento de animais (cf. Mt 12.5,11).
A razão para observar o sábado é que Deus fez a terra em seis dias e ao sétimo dia descansou; portanto, abençoou o SENHOR o dia do sábado e o santificou (11c As Escrituras não fazem uma lista de coisas que se deve fazer no sábado. A inferência inequívoca é que o dia é de descanso e adoração. As ocupações seculares e materialistas devem ser substituídas por atividades espirituais. Cristo condenou o legalismo que deu ao dia a forma severa e insensível, embora não tenha anulado a sacralidade do dia. Foi ordenado para o bem do homem (Mc 2.23-28).
A observância do dia do Senhor (domingo) como o sábado cristão preserva o princípio moral que há neste mandamento. A mudança do sábado judaico para o sábado cristão foi feita gradualmente sem perder necessariamente o propósito de Deus para este dia santo.26 Notamos que os versículos 9 e 10 não especificam o sábado nem “o sétimo dia da semana” como o dia do descanso sabático. A letra do mandamento é cumprida pela observação do dia seguinte aos seis dias de trabalho, como faz o cristão.
5. O Quinto Mandamento: Honrar os Pais (20.12)
Honra a teu pai e a tua mãe é o primeiro mandamento em relação aos homens e rege o primeiro relacionamento que a pessoa tem com outrem: a relação dos filhos com os pais.
Este mandamento é tão básico que é amplamente universal. A maioria das sociedades reconhece a importância de filhos obedientes. A melhor exegese deste versículo é a exortação de Paulo encontrada em Efésios 6.1-3, onde ele destaca as responsabilidades de pais e filhos.
Com este mandamento ocorre uma promessa. Quem honra os pais tem a garantia de vida longa. O propósito desta promessa visava a nação em sua permanência na Palestina e o indivíduo que obedece. A promessa ainda vigora: a nação cujos filhos são obedientes permanece sob a bênção de Deus, e os indivíduos obedientes aos pais têm a promessa de vida mais longa. Haverá exceções a esta regra, mas aqui destacamos sua aplicação geral.27
A vida é a possessão humana mais estimada e é errado privar alguém da vida sem justa causa. A história de Israel mostra que este mandamento não é absoluto. Houve a adição de outras cláusulas, como o homicídio desculpável (21.13), o homicídio acidental (Nm 35.23) e o homicídio justificável (22.2). Israel também foi autorizado a matar os inimigos. Não há exegese racional que condene a pena de morte ou a guerra simplesmente com base neste mandamento. Jesus esclareceu seu significado quando o citou: “Não matarás” (Mt 19.18).
Não há justificativa para a instigação de motins e rebeliões desnecessárias ou outras condições semelhantes que levem ao derramamento de sangue. Há responsabilidade evidente pelo cuidado adequado em viagens, projetos construtivos e jogos esportivos onde haja perigo. Esforços individuais e comunitários são necessários para a preservação da vida humana. Mas este mandamento não requer nem justifica o prolongamento da vida por meio de remédios e equipamentos auxiliares quando a esperança pela vida normal se extingue.
7. O Sétimo Mandamento: Não Adulterar (20.14)
Apureza sexual é o princípio subjacente neste mandamento. Adultério constituiu-se em relações sexuais ilícitas feitas por alguém casado. Tratava-se de pecado contra a família. Mas este mandamento é aplicável a todos os tipos de imoralidade sexual. A concepção em vigor atualmente que afirma haver exceções a esta regra não tem justificativa. Jesus deixou claro que o adultério está no coração e ocorre antes do ato (Mt 5.28). Este mandamento condena todas as relações sexuais que acontecem fora do laço matrimonial. Também infere a proibição de atos que precedem e conduzem ao ato sexual.
8. O Oitavo Mandamento: Não Furtar (20.15)
Este mandamento regula o direito da propriedade particular. E errado tomar de outro o que é legalmente dele. Constitui roubo quando a pessoa se apossa do que legalmente pertence a uma empresa ou instituição. Não há justificativa para a “apropriação” mesmo quando a pessoa sente que o produto lhe é devido. Este mandamento é quebrado quando a pessoa intencionalmente preenche a declaração do Imposto de Renda com
informações falsas, desta forma retendo tributos devidos ao governo. Esta prática é imprópria mesmo que o cidadão desaprove o governo.
Também passa a ser roubo o ato de tirar vantagens de outrem na venda de propriedades ou produtos, ou na administração de transações comerciais. E impróprio pagar salários mais baixos do que devem receber por direito. O amor do dinheiro é o pecado básico condenado por este mandamento. A obediência é perfeita somente com um coração puro.
9. O Nono Mandamento: Não Dar Falso Testemunho (20.16)
Enquanto que o roubo nos priva da propriedade, a conduta da falsa testemunha nos rouba da boa reputação. Seja no tribunal ou em outro lugar, nossa palavra sempre deve ser verdadeira. Não devemos divulgar um relato até que verifiquemos sua veracidade. A repetição da fofoca é imoral; antes de falar devemos averiguar a correção do que dizemos. Há ocasiões em que mesmo a informação verdadeira não deve ser propagada; não temos a obrigação de anunciar a todos o que sabemos que é a verdade. Mas quando falarmos, até onde sabemos, sempre devemos dizer a verdade.
10. O Décimo Mandamento: Não Cobiçar (20.17)
Este último mandamento está por baixo dos quatro precedentes, visto que atinge o propósito do coração. Matar, adulterar, roubar e mentir são resultados de desejos errados que inflamam nosso ser. E singular que a lei hebraica inclua este desafio ao nosso pensamento e intenção. “Os antigos moralistas não reconheciam esta condição” e não condenavam os desejos maus.28 Mas é no coração onde se inicia toda a rebelião, e este mandamento revela o aspecto interior de todos os mandamentos de Deus.
Paulo reconheceu este aspecto interior da lei quando se conscientizou de sua condição pecaminosa (Rm 7.7). Muitas pessoas são absolvidas de crimes com base em atos exteriores, mas são condenadas quando levam em conta os pensamentos interiores. Estes desejos cobiçosos são, por exemplo, pela propriedade ou pela mulher pertencente ao próximo (17). Tais desejos criminosos precisam ser purgados pelo Espírito de Deus; só assim viveremos em obediência perfeita à santa lei de Deus.
C. O Medo do Povo, 20.18-20
Os israelitas estavam perto de uma montanha em chamas e ouviram a voz do Deus Todo-poderoso. Que experiência tremenda! Quando viram esse cenário, afastaram-se e se puseram de longe (18). O medo tomou conta deles. Pediram a Moisés que lhes servisse de intermediário, dizendo: Fala tu conosco, e ouviremos; e não fale Deus conosco, para que não morramos (19). Nestas circunstâncias, sentiram que não estavam tão preparados para questionar a posição de Moisés como profeta de Deus como antes estiveram (17.1-4).
Moisés lhes deu uma palavra tranqüilizadora. Não havia necessidade de temerem excessivamente, pois Deus veio para provar-vos (20), ou seja, “testar se vós respeitareis seus mandamentos”.29 Não precisavam ter medo dos relâmpagos, mas deviam ter um temor santo para que não pecassem contra Deus. Os filhos de Deus não precisam ter medo das providências divinas, mas é essencial possuírem um temor piedoso que os leve à reverência e obediência.
D. As Leis do Concerto, 20.21—23.33 1. A Lei do Altar (20.21-26)
Enquanto o povo medroso se mantinha a distância segura do monte ardente, Moisés se chegou à escuridade, onde Deus estava (21). Os mesmos fenômenos que repeliram as pessoas atraíram Moisés. A verdadeira diferença estava no coração. A fé de Moisés o atraía a Deus.
Deus dá ao seu servo o que denominamos o Livro do Concerto (20.22— 23.33). Em vez de falar diretamente com o povo, Ele se serviu de Moisés como mediador, conforme pediram (19). Deus queria que os israelitas soubessem que aquele que falava por Moisés era o mesmo que falara com eles desde os céus (22) quando lhes dera o Decálogo. Quer Deus fale diretamente ou por meio do seu ministro, o teor transmitido é a sua palavra.
Israel não devia fazer representações de deuses de prata e de ouro. Não fareis outros deuses comigo (23) significa “para me rivalizar” (VBB). Somente Jeová era o Deus dos israelitas, por isso não deveria haver feitio de imagens de qualquer tipo. Os falsos deuses não deveríam participar da glória do Deus de Israel, nem compartilhar a adoração do povo. Estas restrições complementam o segundo mandamento.
Para se aproximar de Deus, o povo deveria fazer um altar de terra (24).
A elevação simbolizava o levantamento do homem em direção ao Deus do céu. A simplicidade do altar fazia o homem tirar a atenção de si mesmo e das coisas materiais para o Deus Exaltado. Obviamente, nesta época Israel conhecia holocaustos e ofertas pacíficas, embora o uso no Egito tivesse sido restrito.
“Em todo lugar onde eu fizer com que meu nome seja lembrado” (24, RSV) indica o propósito de Deus em conhecer Israel e o abençoar. O lugar onde eu fizer celebrar a memória do meu nome (24) refere-se, provavelmente, a lugares onde Ele se manifestou a Israel durante a peregrinação. Em época posterior, quando se desejasse um memorial mais permanente, Israel podería fazer altares de pedras (25), mas só com pedras não lapidadas; usar ferramentas profanaria as pedras. O uso de pedras em sua forma natural impedia que, nesta época, Israel fizesse embelezamentos artísticos, provavelmente por causa do perigo de idolatria. Nas construções posteriores e permanentes, permitiu-se a utilização de altares mais elaborados (27.1-8; 30.1-5). Deus ensinou o povo a começar com o simples e passar para o mais complexo, à medida que o crescimento espiritual fosse justificando.
A restrição no versículo 26 foi dada antes das instruções pertinentes às roupas sacerdotais (28.42). Os altares não deveríam ter degraus. As vestes folgadas que os cabeças sacerdotais das tribos usavam não eram adequadas para subir degraus na presença de pessoas. Deus sempre quer que as coisas sejam feitas com decência e ordem.
2. As Leis Regulamentares Concernentes à Escravidão (21.1-11)
Não devemos nos esquecer de que estes estatutos (1, leis detalhadas) foram dados a Israel para a situação social em que viviam. Deus aplicou seus princípios morais às necessidades vigentes em Israel. A lei não exigia que houvesse escravidão, mas, visto que existia, estas leis regulamentares regeríam a manutenção das relações certas. Os princípios éticos se aplicariam em qualquer tipo de estrutura social que prevalecesse.
Os israelitas tinham de julgar quais eram as ações corretas sob o sistema que estivessem, daí a necessidade destas normas.
a) Leis Regulamentares Concernentes aos Escravos (21.2-6). A pobreza era o motivo de o homem se vender a quem o pudesse comprar. O tempo de serviço seria limitado a seis anos; “mas no sétimo ano será liberto, sem
precisar pagar nada” (2, NVI). Estas regras só se aplicavam aos escravos hebreus (Lv 25.44-46). O propósito dos regulamentos era proteger os direitos individuais. No ano sabático, o escravo sairia livre com sua mulher (3) se ela tivesse entrado na escravidão com ele.
Mas, se o escravo se casou com uma das escravas do seu senhor, ele não podería levá-la consigo quando saísse em liberdade, nem levar os filhos (4). Ele podería ficar, se o amor que tivesse pela família ou senhor (5) fosse tamanho que ele desejasse permanecer escravo. Quando manifestasse o desejo definitivo de permanecer, seu senhor o levaria aos juizes (6) para obter a ratificação do caso. A prova pública e permanente da livre intenção do escravo era dada quando o senhor furava a orelha do escravo com um furador. Por este sinal, ele se tornaria escravo para sempre. Como a orelha é parte integrante do órgão da audição, simboliza a boa vontade em obedecer. Desta forma, até na escravidão havia a garantia de liberdade de escolha.
b) Leis Regulamentares Concernentes às Escravas (21.7-11). A filha vendida em escravidão tinha mais direitos que o homem. Se permanecesse solteira, podería sair livre como qualquer escravo ao término de seis anos (Dt 15.12,17), embora esta cláusula seja adendo posterior. Pelo visto, a situação aqui é a do pai que vende a filha (7) para se casar com o senhor (8) dela ou o filho (9) do senhor dela. Se o senhor não ficasse satisfeito com a moça, ela seria resgatada, ou seja, comprada de volta, mas não podería ser vendida a um estrangeiro (8). Se ela se tornasse esposa do filho do senhor dela, este tinha de tratá-la como filha (9). Mesmo que o marido tomasse outra esposa, a ex-escrava tinha direito a mantimento, vestes e obrigação marital (10). Se estas três condições não fossem atendidas, ela sairía de graça (11), sem ter de pagar nada.
O propósito desta prática era o pai melhorar a situação econômica da filha. Ela se tornaria parte da casa de uma família mais abastada. Estas normas impediram que o senhor se aproveitasse da família pobre, maltratando a moça. Estes regulamentos não apoiavam a instituição da escravidão, mas protegia os direitos de indivíduos que já estavam no sistema.
3. Leis Regulamentares Concernentes a Crimes sujeitos a Pena Capital (21.12-17)
O sexto mandamento não deixou dúvidas ao condenar o homicídio. Estas normas elucidam a lei e declaram a pena, que era a pena de morte por apedrejamento. Os oponentes à pena de morte que se fundamentam apenas no sexto mandamento não interpretam a escritura com correção. O mesmo Legislador que ordenou não matar instruiu que o assassino certamente morrerá (12).
Deus distinguia entre homicídio culposo, ou seja, o assassino quis e premeditou, e homicídio doloso, ou seja, resultante de ato não intencional por parte do assassino. Se o indivíduo não armou cilada (13) para a vítima, mas na providência de Deus o matou (não há acidentes com Deus), então o assassino podería fugir para um lugar de refúgio (Nm 35.22-28). Ali, o assassino estaria seguro até que a questão fosse julgada e a verdade determinada por tribunal apropriado. Se o indivíduo fosse culpado de homicídio culposo (ou premeditado), seria tirado do altar e executado (14). E possível que os altares fossem considerados lugar de refúgio. Muitos no mundo antigo tinham escrúpulos em retirar o criminoso de um altar para aplicar a sentença, mas a lei mosaica considerava que este escrúpulo injustificado era superstição e se recusava a sancioná-lo.30
Ferir (15) um dos pais era reputado crime passível de pena de morte. Estimava-se o ataque aos pais crime tão sério como se resultasse em morte. Certamente o ato era propositado. Os filhos tinham de honrar os pais que os representavam diante de Deus. Os dois pais desfrutavam posição e importância iguais, e a pena era a mesma por ferir qualquer um. Pelo visto, o filho considerado responsabilizado pelo delito seria adulto o bastante para prestar contas pelo ato.
Reputava-se crime passível de pena capital roubar ou seqüestrar um homem (16) e mantê-lo como escravo ou vendê-lo para a escravidão. Esta ação era tão grave quanto o assassinato, visto que tomava a liberdade que era estimada como a vida. Nesta norma, temos a condenação da lei mosaica da prática comum de escravizar pessoas à força.
Amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe (17) significava recorrer sob juramento a Deus para que este se unisse contra seu representante na terra. Tratava-se de crime punível com a morte.
4. Leis Regulamentares Concernentes a Crimes não sujeitos a Pena Capital (21.18-32)
a) A briga entre homens (21.18,19). A lei mosaica reconhecia a perversidade dos homens — eles brigam e se ferem (18). Quando alguém feria com pedra ou com punho (talvez sem a intenção de matar) e a vítima não morresse, mas conseguia levantar-se e andar (19) com o auxílio de uma bengala, a pena era o pagamento pelo tempo que
se perdera e pelos cuidados médicos. A responsabilidade do agressor só acabava quando a vítima ficasse totalmente curada.
b) A morte de um escravo (21.20,21). Na sociedade pagã, os escravos tinham poucos direitos, quando os tinham. Mas Deus reconhecia o valor dessas pessoas; Ele pôs o escravo e a escrava no mesmo nível elevado, quando exigiu a punição do senhor que matasse um escravo (20). O texto não diz com clareza se a pena era a morte.31 Se o escravo sobrevivesse por um ou dois dias (21), não havia pena. O motivo é que a sobrevivência comprovava que o senhor não desejara matar o escravo, mas o castigava para corrigi-lo. Se o escravo morresse depois, a perda econômica do escravo seria a pena do senhor.
c) A mulher grávida (21.22,23). Não é incomum que numa disputa entre homens uma esposa fique ferida ao tentar intervir. Se a mulher estivesse grávida e perdesse a criança, o homem que a feriu teria de pagar uma multa ao marido conforme a estipula-ção dos juizes. Levando em conta que a morte da criança fosse acidental, não se impunha a pena de morte.
Se ocorressem mais danos (23), como a morte da mulher, aplicava-se a pena capital, a menos que o assassino pudesse provar que o ato não fora intencional • cf. 13,14).
d) Alei da vingança (21.24,25). Rawlinson acredita que a “lei da vingança era muito mais antiga que Moisés, que a aceitou como dispositivo tolerável e não como método probo”.32 Leis similares eram proeminentes nas sociedades de antigamente, sendo encontradas no Código de Hamurábi.33 Por ser difícil administrar a exigência de o ofensor sofrer dano equivalente ao causado, mais tarde a lei foi comutada por multa em dinheiro,
exceto para assassinato.34 Jesus não disse que esta lei era injusta, mas pediu que o amor e o perdão prevalecessem (Mt 5.38-48). Na prática, a “pena de talião”, como se chama, resultou em um código de justiça mais misericordioso do que o prevalecente em muitos códigos pagãos. Estas coleções de leis aplicavam a punição mais extrema por ofensas comparativamente minoritárias. Aqui, a punição estava limitada ao
tamanho do crime.
e) O dano a escravos (21.26,27). Temos aqui modificação imediata da lei da vingança. Se o senhor ferisse um olho ou um dente do escravo, ele tinha de libertá-lo, quer fosse homem ou mulher. Os olhos eram considerados o bem mais precioso do homem, ao passo que os dentes eram o menos. Esta cláusula serviria de restrição aos senhores na punição dos escravos, visto que mesmo a extração acidental de um dente poderia privá-los de ter o escravo. Esta lei reflete o reconhecimento do valor humano, ato não encontrado em lugar algum entre as nações daquele período.
f) O dano por animal (21.28-32). Se algum boi chifrasse uma pessoa até a morte, o animal deveria ser apedrejado e a sua carne (28) não podia ser comida. Será absolvido significa “estará sem culpa”. O dono do boi seria responsabilizado pela tragédia se soubesse que o animal era perigoso e nada fizera para evitar a morte — seria negligência criminal. Neste caso, era culpado de crime equivalente a assassinato e deveria ser morto junto com o animal (29).
Em tais casos, havia uma cláusula para resgate. A família da pessoa morta poderia pedir uma soma em dinheiro (30), a qual o dono do boi pagaria e, assim, salvaria a vida. Este resgate também era permitido se a pessoa morta fosse um filho ou uma filha (31). Se a família pedisse um resgate muito alto, os juizes seriam convocados para resolver a questão (cf. 22).
No caso de escravos mortos por boi, pagava-se ao senhor a quantia fixada por lei como preço de escravo: trinta siclos de prata (32). O boi seria apedrejado, como ocorria na morte de um homem livre, desta forma constatando a dignidade humana do escravo.
5. Leis Regulamentares Concernentes a Direitos de Propriedade (21.33— 22.17)
As leis anteriores sobre crimes sujeitos ou não a pena capital eram adendos ao sexto mandamento: “Não matarás”. Por outro lado, a legislação apresentada a seguir pertinente a propriedades está relacionada com o oitavo mandamento: “Não furtarás”. Estas leis reconheciam o direito de propriedade particular. Quando estes direitos eram infringidos, havia a exigência da devida compensação.
a) Uma cova aberta (21.33-34). Covas no chão eram comuns no Oriente, pois eram usadas para armazenamento de água e de cereais. Quando não eram tampadas constituíam perigo para as pessoas. O responsável por ter cavado a cova tinha de pagar pelo ferimento causado a um animal que nela caísse (33). Após o pagamento ao dono do valor do animal, o infrator poderia exigir a carcaça do animal morto. Pelo visto, havia o direito de o gado pastar livremente pelos campos.
b) O boi contra boi (21.35,36). Considerando que os animais pastavam juntos pelos campos sem cerca, um boi poderia matar outro. Quando isso acontecesse, os donos dos bois dividiríam o valor do boi vivo e repartiríam o animal morto (35) em partes iguais. Se fosse sabido que o boi que feriu e matou era perigoso, seu dono teria de pagar o preço total ao dono do boi morto e podería ficar com o animal morto (36). Em casos controversos, havería testemunhas diante de um júri. Pelo visto, a prova de negligência séria era considerada muito importante nestas decisões.
c) O roubo (22.1-4). Bois e ovelhas são usados como exemplos de roubo, porque eram animais muito comuns. O texto não indica a razão de pagar cinco bois por um boi e quatro ovelhas por uma ovelha (1). Talvez a perda de bois fosse mais grave, porque eram animais utilizados no trabalho, ao passo que as ovelhas eram criadas para o fornecimento de lã e carne.
Minar (2) era a ação de cavar uma parede de barro em propriedade alheia. Se o intruso fosse pego no ato e morto, não havería culpa a quem o matasse. Tratava-se de homicídio justificável. Se houvesse decorrido tempo, como dão a entender as palavras se o sol houver saído sobre ele (3), então matar o ladrão não seria justificável e tal assassinato estaria sujeito à pena.35 E possível que o significado desta cláusula seja que não havia culpa matar o ladrão à noite, mas que constituía delito fazê-lo durante o dia. Em todo caso, se o ladrão vivesse, teria de fazer restituição total ou, se não pudesse pagar, seria vendido como escravo (3).
Se o ladrão não tinha matado ou vendido o animal que roubara, ele podería fazer restituição pagando em dobro (4) em vez de quatro ou cinco vezes mais (1). Neste caso, ele devolvería o animal roubado e acrescentaria mais um.
d) A violação dos direitos de propriedade (22.5). Embora pareça que em certas áreas os animais tinham liberdade de andar a esmo (21.33-36), também havia campos ou vinhedos particulares onde era proibido entrar. Os hebreus reconheciam terras particulares e propriedades privadas . Se alguém propositalmente deixasse o gado pastar na vinha ou campo de outra pessoa, ele teria de reembolsar com o melhor produto do seu campo e vinha.
e) O fogo (22.6). Em certos períodos do ano, as pessoas juntavam mato seco nos campos para queimar. Se por descuido, o fogo se espalhasse e queimasse os grãos estocados ou empilhados nos campos, o indivíduo que acendeu o fogo tinha de pagar por completo o que fora queimado. Estas normas ensinavam o cuidado e promoviam o respeito pelos direitos de propriedade dos outros.
f) Os bens sob custódia (22.7-13). Nas sociedades primitivas, onde não se conheciam transações bancárias, era costume deixar bens nas mãos de outras pessoas. Em tais casos, havia necessidade de leis protetoras. Se dinheiro ou bens entregue aos cuidados de outrem fossem roubados por um ladrão, o culpado, depois de capturado, teria de pagar o dobro (7). Se o ladrão não fosse encontrado, o depositário dos valores ou objetos teria de comparecer perante os juizes para que o caso fosse resolvido (8). A palavra traduzida por juizes podería ter sido vertida por “Deus”, embora o contexto indique o sentido de juizes que agem como representantes ou agentes de Deus (cf. ATA).
O versículo 9 explica o que acontecia quando duas partes afirmavam ter direito ao mesmo objeto. A questão, que também poderia surgir nas circunstâncias descritas no versículo 8, quando o dono acusava o depositário de desonestidade, seria resolvida perante Deus pelos juizes. Qualquer que fosse a decisão tomada, a pessoa condenada teria de pagar o dobro à outra.
Além de bens e dinheiro, também se entregava gado aos cuidados de outra pessoa (10). Se durante o período da guarda o animal morresse ou fosse ferido ou desaparecesse, era necessário haver “um juramento diante do SENHOR” (11, NVI) entre as partes para provar a inocência do depositário. Quando o dono aceitava esse juramento, não havia restituição.
Se durante a guarda o animal fosse furtado, teria de haver restituição (12). Esta regra era diferente da lei relativa à questão do dinheiro ou bens descrita no versículo 7. Havia o pressuposto de que os pastores, quando responsáveis, poderiam evitar o roubo de animais, ao passo que dinheiro era tomado com mais facilidade. Se o animal fosse morto por outro, a pessoa incumbida de guardar o animal estaria livre da culpa se pudesse mostrar o animal morto como evidência (13). O pastor alerta talvez não evitasse o ataque de um animal selvagem, mas poderia recuperar parte da carcaça como prova. Neste caso, não haveria necessidade de restituição.
g) O empréstimo (22.14,15). A pessoa era responsável pelo que pedira emprestado. Se o animal emprestado fosse ferido ou morresse e o dono não estivesse presente, o tomador do empréstimo teria de fazer plena restituição (14). Se o dono estivesse presente quando o animal fosse ferido ou morresse, não haveria restituição (15). Estar presente o tornava responsável mesmo quando outra pessoa estivesse usando o animal.
A questão era diferente quando se tratava de algo alugado. “O contratante não deveria compensar pelo dano da coisa alugada, visto que o risco de dano poderia ter sido levado em conta no cálculo da quantia do aluguel.”38 As palavras será pelo seu aluguel podem ser traduzidas por: “O dano está incluso no aluguel” (ATA).
h) A sedução de uma virgem (22.16,17). A sedução de uma virgem era uma forma de roubo. O pai esperava que o casamento da filha lhe trouxesse um dote. Se um homem a seduzisse (com o consentimento dela) e tivesse relações sexuais, ele teria de pagar o dote e a tomar por esposa
(16) . Se o pai lhe recusasse a permissão de ser esposa do sedutor, como pena o culpado teria de dar dinheiro conforme ao dote das virgens
(17) . O registro bíblico não diz qual era a quantia. Supomos que era maior
que o dote de esposa.3, Este ato não era considerado transgressão do mandamento de não cometer adultério, mas do mandamento de não roubar.
6. Outros Crimes Puníveis com a Morte (22.18-20)
Feiticeira (18) era a mulher que praticava feitiçaria, ação de confiar em
espíritos malignos.38 Esta norma não validava a realidade de comunicação genuína com espíritos malignos, mas condenava a provocação que a
feitiçaria representava à fé no verdadeiro Deus. Esta prática causava ferimentos físicos e perdas na vida das pessoas. A feiticeira preparava medicamentos com mistura de ervas e, assim, tomava-se preparadora de compostos venenosos.39 Se tal pessoa persistisse nestas práticas profanas e perigosas deveria ser morta.
Relações sexuais com animais (19) eram prática freqüente nas religiões pagãs. Israel não poderia tolerar semelhante perversidade, por isso o ofensor teria de ser morto.
O código mosaico (Dt 13.1-16) condenava cabalmente o reconhecimento de falsos deuses (20). Deus não teria rivais; os israelitas tinham de abandonar toda semelhança de falsa adoração. Em Israel, quem incentivasse ou perpetuasse objetos da religião pagã teria de ser totalmente destruído.
7. Deveres Vários (22.21-31)
a) Contra a opressão (22.21-24). O povo de Deus não deveria oprimir ou atormentar o estrangeiro (21). Os israelitas não podiam esquecer que foram estrangeiros na terra do Egito. O Pai Celestial sempre considera odioso maltratar os estrangeiros.
Deus tinha compaixão especial pela viúva e pelo órfão (22). Os ouvidos divinos estavam perfeitamente afinados ao clamor aflito dessas pessoas (23). Quem afligisse esses desafortunados sofreria sob a ira de Deus (24). Este homem malvado seria morto e sua esposa e filhos, abandonados. A história da punição de Israel às mãos dos babilônios reflete o cumprimento deste malefício. E interessante reparar que estas transgressões de Israel foram castigadas mais diretamente por Deus mediante nações inimigas do que pelas pessoas em Israel investidas de poder. Não há que duvidar que transgressões como estas eram cometidas com mais freqüência pelas próprias pessoas em Israel que detinham o poder de administrar justiça.
b) O empréstimo (22.25-27). Deus tinha consideração pelos pobres e proibia os ricos de tirar vantagem deles. Quando o pobre tivesse de obter um empréstimo (um adiantamento salarial para comprar comida), não deveria ser cobrado usura (25, juros). Aqui não é tratada a idéia de juros nos empréstimos comerciais, pois esta prática foi uma evolução posterior. Se o credor levasse uma peça de roupa como penhor, teria de devolvê-la ao anoitecer (26). Esta roupa era uma capa exterior, larga e esvoaçante,
desnecessária durante o dia, mas usada especialmente pelos nômades para dormir nas noites frias (27). Reter tal penhor e causar sofrimento ao pobre que não podia pagar traria o desfavor de Deus. Ele é misericordioso (compassivo) e espera que seu povo tenha espírito semelhante.
c) As obrigações para com Deus (22.28-31). A palavra juizes (28) neste contexto também pode ser traduzida por “Deus” (cf. ARA).40 Os israelitas deviam desprezar os deuses estrangeiros (Is 41.29; 44.9-20). Ninguém deveria insultar Deus ou os juizes devidamente escolhidos, nem deveria maldizer o príncipe dentre o povo. O príncipe era a pessoa mais importante de cada tribo, sendo considerada representante de Deus.
Era falta comum demorar dar a Deus a parte que lhe cabia das primícias ou primeiros frutos (29). Esta ordem exigia levar imediatamente a Deus em sacrifício o que Ele afirmara lhe pertencer. Licores é mais bem traduzido por “o que sai pelo escoadouro das vossas prensas” (RSV; cf. ARA).
Em 13.12, registra-se que os primogênitos pertencem ao Senhor. Tinham de ser resgatados pelo pagamento de uma soma estipulada. Os primogênitos dos bois e das ovelhas deviam ser dados em sacrifício. O prazo de espera permitido para sacrificar esses animais era os primeiros sete dias para ficarem com a mãe (30). Tratava-se de ato misericordioso à mãe do animal, que durante este período de tempo precisava do recém-nascido para ser reconfortada e recuperar a saúde. O animalzinho tinha de ser entregue ao oitavo dia.
Deus ordenou ao povo: Ser-me-eis homens santos (31). Significava essencialmente tornar-se santo de coração e espírito. Mas esta santidade interior era prognosticada pelos sinais externos da pureza de Deus. Estes homens santos não deviam comer animais despedaçados por animais selvagens no campo. Estes animais se tornavam cerimonialmente impuros pelos animais impuros que os dilaceravam e também pelo sangue que ficava na carne. Homens santos de coração querem agir como Deus. Por essa razão, acham fácil seguir as leis claramente definidas por Deus.
Os versículos 18 a 31 mostram “A Natureza de Deus”. 1) Severa na punição do mal, 18-20; 2) Compassiva com os necessitados, 21-27; 3) Digna de respeito e obediência, 2830; 4) Expectante da santidade no seu povo, 31.
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8. Instruções Éticas (23.1-9)
a) Prestar falso testemunho (23.1-3). Não devemos admitir falso rumor (1) nem espalhá-lo (ARA). O homem de Deus nunca deve ser testemunha falsa em tribunal ou em qualquer outro lugar. Ele se une com o ímpio quando quebra o nono mandamento.
Mesmo quando a multidão (2) estiver no lado errado, o homem de Deus tem de tomar posição solitária pelo que é certo. Podemos contar que a multidão erre, porque muitos tomam o caminho largo (Mt 7.13,14). O significado do versículo 2b é: “Vós não deveis [...] prestar testemunho no tribunal de modo a apoiar uma maioria injusta” (Moffatt).
Nem devemos ser parciais com os pobres em suas questões judiciais (3). Mesmo que a lei proteja os pobres, o entusiasmo pela causa dos pobres não deve perverter a justiça. O juiz ou júri tem de julgar de acordo com a retidão e não segundo o apelo popular. Nestes dias em que há o movimento popular pelos direitos civis, direitos penais e mitigação da pobreza, os direitos dos outros cidadãos também devem ser protegidos.
b) Ajudar o inimigo (23.4,5). “Na antigüidade, não se reconhecia que os inimigos tivessem algum direito.”41 Mas o foco que o Novo Testamento dá ao amor é antecipado nesta exortação em ajudar o inimigo (4). Se o animal do inimigo se perder, sem falta lho reconduzirás. Se encontrasse o animal do inimigo caído sob uma carga, deveria ajudá-lo a erguer a carga (5). Esta é tradução mais clara da última parte do versículo: “Não deixes o homem lutando sozinho, ajuda-o a libertar o animal” (ATA). Trabalhar junto com o inimigo para ajudá-lo a pôr o jumento de pé poderia enfraquecer os sentimentos ruins entre os homens.
c )Não perverter a justiça (23.6-8). Estas instruções são dirigidas aos juizes. Os pobres deveríam receber julgamento justo (6), embora fosse comum ocorrer o contrário. Sempre que houvesse falsa acusação, o juiz não deveria dar sentença que matasse o inocente e o justo (7). Deus não justifica o juiz perverso de forma alguma. O juiz jamais deveria aceitar presente (8, suborno). A necessidade desta regra é sempre atual. Mais tarde, Israel foi muito longe no mal pernicioso de aceitar subornos (1 Sm 8.3; Is 1.23; 5.23).
d) Lembrar-se do estrangeiro (23.9). Esta é repetição da advertência encontrada em
22.21, embora aqui a idéia tenha relação especial com a ação em questões legais. Os israelitas sabiam como os estrangeiros se sentiam, por isso tinham ótimas razões para serem amáveis e justos com eles.
9. A Observância do Sábado (23.10-13)
a) O ano sabático (23.10,11). As outras nações não guardavam um ano de descanso para a terra a cada sete anos, por não terem legislação a respeito. Para um povo agrícola, esta medida talvez fosse muito drástica. De acordo com a interpretação de 2 Crônicas
36.21, Israel negligenciou esta prática 70 vezes, ou mais ou menos a metade, entre o Êxodo e o Cativeiro. A lei foi dada para testar a obediência dos israelitas, favorecer os pobres, visto que no sétimo ano podiam participar dos frutos (11) e proporcionar tempo de comunhão especial com Deus.42
b) O dia sabático (23.12,13). Neste trecho, nada é acrescentado à declaração do quarto mandamento. O texto repete o propósito de animais, escravos e estrangeiros descansarem e tomarem alento. Este sétimo dia era o dia de Deus, quando nem se devia mencionar o nome de outros deuses (13). Estes sábados eram lembrança constante para os judeus de suas obrigações ao Deus de Israel.
10. As Principais Festas (23.14-19)
a) As três festas (23.14-17). Três vezes no ano, todos os homens tinham de comparecer perante Deus em comemoração especial (14,17). A primeira ocasião era a Festa dos Pães Asmos (15), que estava junto com a Páscoa (cf. 12.14; Lv 23.5). Imediatamente após a Páscoa, a festa continuava por sete dias (ver comentários em 12.15-20). Esta festa comemorava particularmente a fuga do Egito e era celebrada levando presentes a Deus. O versículo 15 diz: “Ninguém apareça de mãos vazias perante mim” (ARA).
A Festa da Sega (16) era o Pentecostes (Lv 23.15-22; Nm 28.26-31; Dt 16.9-12), ocasião em que se apresentavam os primeiros frutos de campos previamente plantados.
A Festa da Colheita também se chamava a “Festa dos Tabernáculos” (Lv 23.34-43; Nm 29.12-40; Dt 16.13,14). Ocorria no final do outono, após o término das colheitas, e durava uma semana. Era oportunidade de agradecimento. Rawlinson escreve: “Do ponto de vista religioso, os festivais eram ações de graças nacionais pelo recebimento de bênçãos naturais e milagrosas. A primeira festa se referia ao começo da colheita e à libertação do Egito; a segunda festa dizia respeito ao término das colheitas de grãos e à travessia do mar Vermelho; a terceira festa aludia à colheita final dos frutos e às muitas bênçãos recebidas no deserto”.43
b) As ofertas nas festas (23.18,19). A oferta de sangue (18) era feita principalmente na Páscoa e não deveria ser oferecida com pão levedado (18). Nada do cordeiro, até a gordura, deveria ficar até de manhã; o que sobrasse seria queimado (12.10). Nestas festas, os israelitas levavam à casa de Deus as primícias, os primeiros frutos (19), que simbolizavam a consagração do todo.
Soa estranha a instrução para não cozer o cabrito no leite de sua mãe. Talvez indique o erro de permitir que algo que foi ordenado para criar vida (o leite) seja meio de morte. Há quem sugira que o cabrito preparado dessa maneira era uma iguaria muito extravagante para as festas.44 E mais provável que a proibição esteja ligada com a prática cananéia que dizia que comer carne preparada dessa maneira promovia a fertilidade. Sua relação com esta cerimônia pagã a tomava imprópria para o povo de Deus.48 O Senhor não queria que os israelitas copiassem procedimentos que pudessem facilitar o povo cair na idolatria.
11. A Promessa Divina de Vitória (23.20-33)
a) A vitória pelo Anjo do Senhor (23.20-22). Este Anjo era o mensageiro de Deus, o Espírito incriado em quem Deus se revelou. “Em 33.15,16, é chamado a presença de Jeová, porque a natureza essencial de Jeová estava manifesta nele.”46 A coluna de nuvem e de fogo era símbolo exterior do Anjo. Foi enviado diante dos israelitas para protegê-los e levá-los ao lugar que Deus preparara para eles (20). Israel deveria obedecer este Anjo, porque Deus não perdoaria a rebelião contra a voz desse ser angelical (21). Ele tem em si a autoridade de Deus. Obedecer significa ter vitória, porque Deus lutará por Israel e derrotará os inimigos (22).
b) A vitória sobre os inimigos (23.23,24,27-33). Esta é outra lista dos inimigos que Israel encontraria em Canaã (23; cf. CBB, vol. II). Deus prometeu que o Anjo de Deus iria à frente do povo, e que Ele destruiria os inimigos de Israel como nação. Este aviso especial foi repetido muitas vezes: Os israelitas não deveriam se inclinar diante dos deuses dessas nações, nem servi-los (24). O povo de Deus não deveria implementar estas práticas pagãs na adoração. O Senhor exigia que Israel destruísse totalmente estas falsas religiões e quebrasse suas imagens. Os conquistadores gostavam de guardar os objetos de adoração das nações derrotadas como relíquias, mas esta ação só serviría de laço para o povo de Deus (33). Foi a desobediência a esta diretiva que acabou colocando Israel sob o julgamento de Deus.
Deus repete a promessa de vitória total dos israelitas sobre as nações da Palestina (27). O terror de Deus viria sobre os cananeus; o Senhor os expulsaria como se houvesse vespões perseguindo-os (28). Há quem entenda vespões no sentido literal, mas a expressão foi usada figurativamente para descrever os exércitos de Israel ao encalço dos inimigos. Deus não prometeu libertação instantânea; os habitantes da terra seriam derrotados gradualmente conforme Israel fosse capacitado para aumentar e herdar a terra (30). A súbita destruição deixaria a terra deserta e vítima de animais selvagens (29). Espiritualmente, a libertação que Deus ocasiona no coração ímpio é instantânea, mas há muitos inimigos a serem vencidos pelo cristão santificado em seu andar diário. A medida que crescemos, nos habilitamos para vencer mais desses inimigos e herdar porção maior da terra que Deus prometeu.
As fronteiras de Israel se estenderíam do mar Vermelho, no sul, ao mar dos Filisteus (o mar Mediterrâneo), no oeste. No leste, ficaria o deserto e, no norte, o rio Eufrates (31; ver Mapa 2). Israel alcançou estas fronteiras somente no reinado de Salomão (1 Rs 4.21,24; 2 Cr 9.26). Os israelitas não conseguiram manter esses limites nacionais por causa da desobediência.
O povo de Deus não deveria fazer concerto (acordo) com as nações da Palestina nem com os seus deuses (32). Estes povos pagãos não deveriam habitar na terra como nações para não levar Israel ao pecado; os deuses certamente seriam uma armadilha para Israel (33). Deus queria que estes povos com sua adoração pagã fossem destruídos como nações. Lange
escreve: “Pelo visto, o propósito primário de Jeová em destruir os cananeus dizia respeito à capacidade coletiva e pública desses povos e não visava as pessoas em si. Na medida em que se submetessem, Jeová permitiría os indivíduos viverem na qualidade de pessoas”.47
c) As bênçãos temporais (23.25,26). Se obedecessem a Deus, os israelitas teriam a garantia divina de que os inimigos seriam aniquilados e que havería provisão de pão e água (25). Deus também prometeu tirar do meio deles as enfermidades. Assegurou aumento extraordinário de animais e pessoas, junto com vida longa (26). Obedecer a Deus e viver de modo justo garantem bênçãos temporais como resultado habitual, embora os cristãos passem por tribulação neste mundo (Jo 16.33). O cumprimento completo desta promessa ocorrerá na era vindoura.
Os versículos 20 a 33 retratam “O Filho de Deus Vitorioso”. 1) Obediente à voz de Deus, 20-22; 2) Confiante nas promessas de Deus, 23-28; 3)
Paciente com o plano de Deus, 29-31; 4) Alerta aos avisos de Deus, 32,33.
E. A Ratificação do Concerto, 24.1-18
1. O Concerto Selado com Sangue (24.1-8)
Moisés estava no monte (19.3) recebendo o livro do concerto (7), o qual agora teria de ser selado. Tendo descido para o povo (19.25), ele foi mandado de volta à presença de Deus no monte com Arão, seus dois filhos e setenta dos anciãos de Israel (1). Estes anciãos eram os chefes das tribos e famílias de Israel que foram líderes no Egito; por meio deles Moisés se comunicava com o povo (3.16; 4.29; 12.21; 17.5,6). O grupo tinha de subir para adorar, mas permanecer longe de Deus. Somente Moisés podería se chegar ao SENHOR (2); os outros tinham de ficar mais distantes. O povo não teve acesso algum ao monte (ver 19.12,13). No Antigo Testamento, não havia esta aproximação livre a Deus que temos hoje em Cristo (cf. Hb 10.19-22).
Antes que o grupo subisse ao monte, Moisés veio e contou ao povo todas as palavras (3) que o Senhor lhe dera. Estas palavras e estatutos são o teor registrado do que chamamos Livro do Concerto (20.22—23.33). Depois que o povo ouviu, respondeu a uma voz, dizendo: Todas as palavras que o SENHOR tem falado faremos. Na reverência e inspiração do
momento, talvez sem se dar conta da grande dificuldade que teriam em obedecer, os israelitas fizeram esta promessa a Deus.
Depois de escrever todas as palavras do SENHOR (4), Moisés, pela manhã de madrugada, construiu um altar com doze monumentos
(“colunas”, ARA) ao pé do monte. O altar representava Deus, e os doze pilares representavam as doze tribos de Israel. Aqui estava sendo decretado um acordo entre estas pessoas e o Senhor.
Holocaustos (5) eram ofertas expiatórias e marcas de autodedicação, ao passo que sacrifícios pacíficos (“ofertas de paz”, NTLH) indicavam agradecimento pelas bênçãos de Deus. Estas ofertas foram oferecidas por jovens especialmente selecionados em favor de Israel. As ofertas mostravam gratidão por serem incluídos no concerto e salientavam a determinação de Israel ser inteiramente consagrado ao serviço de Deus.48
A metade do sangue (6) das vítimas sacrificadas foi colocada em bacias para uso posterior; a outra metade Moisés espargiu sobre o altar. Este sangue no altar denotava a consagração do sacrifício que representava o povo a Deus. O sangue também representava a parte de Deus no concerto
Na presença do sacrifício e do altar, Moisés leu para o povo o que escrevera no livro do concerto (7). Ele já relatara esta mensagem oralmente (3), mas os israelitas precisavam conhecer claramente o concerto que faziam com Deus. Mais uma vez o povo prometeu ser obediente. A outra metade do sangue guardado nas bacias (6), Moisés o espargiu sobre o povo (8); chamou este sangue o sangue do concerto. Este foi o primeiro concerto feito com Israel e foi selado com o sangue de sacrifícios de animais. O Novo Testamento descreve o novo ou segundo concerto que substituiu o antigo e foi selado com o sangue de Cristo (Hb 8.6—9.28). Se o antigo concerto exigia a obediência total das pessoas à vontade de Deus, certamente não se esperava menos daqueles que fizessem parte do novo concerto (Hb 12.18-29).
2. O Encontro com Deus (24.9-11)
O grupo requisitado a subir o monte (v. 1) subiu (9), depois de selar o concerto com o sangue. Os sacerdotes, Arão, Nadabe e Abiú, eram os representantes espirituais do povo, enquanto que os setenta anciãos
eram os líderes políticos. São chamados escolhidos (11), indicando que eram de nobre nascimento e pessoas altamente respeitadas pelo povo que representavam.
Parece que nesta experiência de encontro com Deus, todos participaram de uma refeição sacrifical, porque eles comeram e beberam (11). “O sacrifício envolvia uma refeição sacrifical, e Moisés, obedecendo a ordem do versículo 1, levou os anciãos ao monte para comer a carne do sacrifício e, assim, comungar com Deus a quem a ofereciam”.49
Durante esta refeição os participantes tiveram uma experiência especial com Deus. O texto afirma que eles viram o Deus de Israel (10,11). Devemos entender esta visão do Senhor como manifestação de Deus, uma teofania, quando os olhos podem ver nitidamente uma representação da Pessoa divina. “Não devemos ir além dos limites impostos em 33.20-23 para concebermos o que constituía a aparência de Deus; ao mesmo tempo, temos de considerá-la visão de Deus em alguma forma de manifestação que tornou a natureza divina discernível aos olhos humanos.”50 Nesta aparição, Deus se revelou em sua amabilidade como Convidado a uma refeição e não se mostrou em trovões e terremotos medonhos como na outra vez. Debaixo de seus pés (10) havia um pavimento de pedra de safira tão claro quanto o céu. Os escolhidos (11) não ficaram com medo; comeram e beberam com alegria na presença divina sem medo de morrer. Moffatt traduz o versículo 11a: “O Eterno não fulminou este chefes de Israel [como poderíam ter esperado]. Deus lhes mostrou o lado gentil, adorável e atraente do seu caráter, e não seu lado terrível e aterrador; e foram instruídos a esperar um estado final de felicidade, no qual os servos do concerto de Deus habitariam continuamente em sua
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presença”.
Esta experiência graciosa também indicava o dia quando, sob o novo concerto, os filhos de Deus desfrutariam o privilégio mais sublime: a conscientização da presença de Cristo na santa ordenança da Ceia do Senhor.
Os versículos 3 a 11 pintam “Um Concerto com Deus”. 1) As cláusulas declaradas com clareza, 3a,4,7a; 2) As promessas feitas com confiança, 3b,7b; 3) O sangue aspergido com profusão, 5,6,8; 4) O Divino manifestado com glória, 9-11.
3. Moisés Volta ao Monte (24.12-18)
Israel recebeu o Decálogo e o Livro do Concerto. Mas agora, depois de sua ratificação pela nação, Deus tinha instruções adicionais para dar ao seu povo especial. Para manter a vida religiosa, os israelitas precisavam de uma forma definida de culto e regulamentos que tratassem das aparências como, por exemplo, pessoas santas, lugares, ritos e cerimônias. As leis contidas no Decálogo e no Livro do Concerto eram importantes, mas Deus precisava dar a Israel os rituais e as leis cerimoniais que formam o tema principal do restante do Livro de Êxodo.
a) O chamado (24.12-14). Moisés foi chamado a subir o monte para receber as tábuas de pedra, e a lei, e os mandamentos (12), os quais Deus escrevera. Os Dez Mandamentos foram escritos nas tábuas (cf. 31.18; Dt 5. 22). Já a lei e os mandamentos registrados em outros lugares, continham instruções para o santuário e o sacerdócio, e as leis rituais encontradas em Levítico e Deuteronômio.52 O propósito para registrar estes princípios era para que Moisés pudesse transmiti-los ao povo.
Moisés levou Josué consigo (13). O texto não informa se Josué entrou na nuvem ' 18), mas a declaração no versículo 2 insinua que somente Moisés chegou perto de Deus. Antes de sair, Moisés pediu aos anciãos que permanecessem com o povo e que, em sua ausência, levassem toda questão a Arão e Hur (14). Ele ficaria fora por certo tempo.
b) A aproximação a Deus (24.15-18). Quando Moisés subiu, uma nuvem cobriu o monte (15). O versículo 16 identifica que a nuvem é a glória do SENHOR. Esta nuvem de glória permaneceu no monte seis dias sem haver voz. Estes eram dias de preparação para Moisés antes de entrar diretamente na presença de Deus. Josué provavelmente estava com ele durante estes dias. Os israelitas podiam ver a nuvem, que para eles tinha a aparência de um fogo consumidor no cume do monte (17), mas eles sabiam que Moisés ia se encontrar com Deus na nuvem.