Por esta razão, Moisés e Arão (8) foram levados outra vez à presença do rei. Pela primeira vez, Faraó cedeu antes do início da praga. Deu permissão para os israelitas partirem, mas tentou fazer outro acordo. Ele permitiría a ida dos homens se deixassem suas famílias e rebanhos. Seu objetivo era destruir a totalidade da proposição opondo-se aos detalhes. Moisés deixou claro que todos iriam — os meninos, os velhos, os filhos, as filhas, as ovelhas e os bois (9). Sempre é bom saber perfeitamente os próprios planos ao lidar com um oponente da verdade. O versículo 10 é mais bem traduzido por um tipo de juramento: “Esteja o Senhor convosco, se algum dia eu vos deixar ir com seus pequeninos! Vede que tendes algum propósito mau em mente” (ATA). O rei considerava a concessão plena do pedido como se fosse uma blasfêmia: “Tão improvável quanto vos deixarei ir com vossos filhos é tão improvável que vós ides em vossa viagem, sendo igualmente tão improvável que Jeová estará convosco”.66 Faraó ficou enfurecido ao sentir a pressão e ver a firmeza de Moisés. Ele poderia chegar a um acordo, mas nunca ceder completamente.

•    Faraó admitiu o que sabia desde o princípio. Este

   O CONCERTO NO MONTE SINAI

•    A INSTITUIÇÃO DA ADORAÇÃO A DEUS

   Quando Moisés chegou ao arraial e viu pessoalmente

•    43/à

1

Ameaça à Existência de Israel (1.15-22)

O escritor de Exodo está compondo o cenário para o nascimento e proteção milagro

3

sa de Moisés. A reação dos israelitas confundiu o maldoso rei do Egito e seus conselhei

4

ros, que tiveram de recorrer a métodos mais severos para debilitar Israel.

Faraó admitiu o que sabia desde o princípio. Este povo queria a liberdade. Acusou essas pessoas de serem mal-intencionadas (10). Teria a garantia do retorno dessa gente ao Egito retendo os filhos. Os varões (cf. 7) poderíam ir (11); Faraó insinuou que desde o início era isso mesmo que eles queriam. Sentia-se exasperado e imediatamente expulsou Moisés e Arão da sua presença.

d)    A invasão dos gafanhotos (10.12-15). Sem mais avisos, Deus enviou os gafanhotos (12). Vemos o aspecto milagroso no fato de os insetos surgirem quando estendeu Moisés sua vara (13). O vento soprou por 24 horas, trazendo gafanhotos de muito longe. Não era comum que eles estivessem sobre toda a terra do Egito (14). Nunca houve nem haverá tamanha infestação de gafanhotos.

Quando o registro bíblico diz que eles cobriram a face de toda a terra (15), significa a terra do Egito, exceto, presumimos, a terra de Gósen onde Israel habitava. Se os israelitas tivessem sofrido com esta praga, depois de terem sido isentos das outras, teria sido pior para eles do que para os egípcios, pois teriam mais a perder. Entendemos que a divisão de Deus entre Israel e o Egito continuou valendo para todas as pragas depois das moscas (8.22). Não está claro se cobrir a face de toda a terra significava uma camada espessa de gafanhotos no chão ou nuvens grossas no ar. Provavelmente a primeira opção”7 é a correta.58

e)    O abrandamento de Faraó (10.16-20). Sob a pressão deste julgamento, Faraó pediu a Moisés que trouxesse alívio. E habitual homens obstinados sejam movidos mais por emoções momentâneas do que pela razão. Desta vez, Faraó admitiu ter pecado contra o SENHOR e contra Moisés (16). Pediu perdão pelo pecado e queria alívio desta morte, a praga (17). Superficialmente, parecia muito sincero.

Quando Moisés orou ao SENHOR (18), Deus enviou um vento ocidental fortíssimo (provavelmente vento noroeste vindo do mar Mediterrâneo) que varreu os gafanhotos para o mar Vermelho. Nenhum gafanhoto permaneceu na terra. Ninguém em são juízo duvidaria do fato de a mão de Deus estar nesta praga e em sua remoção. Mas nem as emoções do medo e preocupação ou as faculdades racionais da mente mudariam o coração de Faraó. Seu coração estava tão firme contra Deus que ele não se rendería. Agora Deus o tornara escravo da teimosia e o

dirigia a um triste fim (cf. 7.13 e comentários ali). Visto que se aferrava em sua resistência a Deus, Faraó se tornaria exemplo de maldade de coração perverso e, por conseguinte, do poder do Deus Todo-poderoso.

9. As Trevas (10.21-29)

Não houve anúncio para esta nona praga. Sob as ordens de Deus, Moisés estendeu a sua mão para o céu, e houve trevas espessas em toda a terra do Egito por três dias (22), trevas que podiam ser apalpadas (21).

A maioria dos estudiosos concorda que foi o hamsin, uma tempestade de

areia tão :emida no Oriente, que ocasionou estas trevas.59 O milagre estava em que veio segundo a palavra de Deus (21) e não ocorreu onde o povo de Deus habitava (23). As trevas eram tão densas que os homens não se viam uns aos outros. Não é necessário supor a inexistência de luz artificial ou o fato de as pessoas não se movimentarem em seus lares.60 Toda a atividade comercial e empresarial cessou e a população egípcia ficou em casa.

Agora Faraó estava pronto para outra contraproposta. Depois de chamá-lo, disse a Moisés: Ide, servi ao SENHOR; somente fiquem vossas ovelhas e vossas vacas (24). Igual a Satanás! Cede quando é forçado, mas busca uma pequena concessão. Muitas pessoas sucumbem às sugestões malignas e aceitam a proposta. Mas Moisés não! Ele declarou: Nem uma unha ficará (26). Moisés sabia qual era a ordem de Deus, embora ainda não dispusesse de todas as razões. Esperava mais instruções conforme o desdobrar dos acontecimentos.

Os cristãos nunca conseguirão plena vitória enquanto derem lugar ao diabo. Há quem insista que um pequeno pecado não faz mal, ou que sempre fica algum mal no coração. Mas a Palavra de Deus é clara: “Que [...] vos despojeis do velho homem” (Ef 4.22); “Despojai-vos também de tudo” (Cl 3.8); “Não deis lugar ao diabo” (Ef 4.27). Nenhum acordo com Satanás jamais resultará em vitória total ou liberdade completa para o filho de Deus.

O Senhor ainda tinha algo a tratar com Faraó. Deus desejava mostrar o que Ele faz com quem lhe resiste tão cabalmente. Em vez de Faraó permitir a saída de Israel, Deus endureceu ainda mais o coração do monarca (27; cf. comentários sobre 7.13). A raiva deflagrou-se

furiosamente sobre Moisés, quando Faraó ordenou que o servo de Deus se afastasse para sempre, ameaçando-o de morte se o visse novamente (28). Pelo menos por uma vez Moisés ouviu a voz da verdade em Faraó, e respondeu: Bem disseste; eu nunca mais verei o teu rosto (29). Faltava pouco para Deus terminar com Faraó. Não havia muita coisa que este tirano pudesse fazer, preso como estava nos laços do seu coração arrogante.

Nos capítulos 8 a 10, vemos “Os Perigos das Concessões ao Pecado”. 1) Permanecendo perto do mundo: Sacrificai... nesta terra, 8.25,28; 2) Negligenciando a religião em família: Deixai os varões irem, 10.8-11; 3) Retendo os bens materiais: Deixai as ovelhas e as vacas ficarem, 10.24;

4) Vencendo por total compromisso: Nem uma unha ficará, 10.26.

10. O Anúncio da Ultima Praga (11.1-10)

a) Deus fala com Moisés (11.1-3). Talvez estes versículos sejam parentéticos, porque os versículos 4 a 8 são continuação da narrativa da última visita de Moisés a Faraó. Alguns estudiosos advogam que a tradução deveria ser: O SENHOR tinha dito a Moisés (l).610 pensamento é que Deus já dissera essas coisas a Moisés (ver 3.21,22), que inseriu as palavras neste momento oportuno. Outros duvidam da validade desta tradução e asseveram que Deus deu estas palavras a Moisés quando este estava na presença de Faraó.62 Em qualquer caso, a mensagem não deixava dúvida. Ainda haveria mais uma praga e, depois, Faraó lançaria Israel para fora do Egito.

Quando esse momento chegasse, os filhos de Israel, homens e mulheres, deveríam pedir aos egípcios jóias de prata e de ouro (2). A idéia era arrancar dos egípcios tesouros de valor. Como exército conquistador, os israelitas deveríam despojar os egípcios (3.22).

Por receberem graça... aos olhos dos egípcios (3), as provisões com as quais Israel seria lançado para fora do país aumentariam. O versículo 3 dá um vislumbre por trás dos bastidores do Egito, enquanto ocorria a franca competição entre Faraó e Moisés. No cenário do palco público, parecia que Moisés estava fracassando, com Faraó recusando-lhe os pedidos e acusando-o de más intenções e insubordinação. Mas o povo comum estava impressionado com o Deus de Israel e começava a honrar o servo e o povo do Senhor.

Com a nona praga, os egípcios passaram a considerar os israelitas como povo de Deus e a lhes desejar o bem. A razão para estas boas graças deve-se em grande parte ao líder, Moisés, que a esta altura era “grandemente estimado na terra do Egito” (3, Smith-Goodspeed). A competição com Faraó e as resultantes vitórias haviam elevado Moisés aos olhos dos egípcios e lhe colocado no mesmo nível que Faraó, o qual era venerado como deus na terra.63

b) Moisés fala com Faraó (11.4-8). No versículo 4, a conversa com Faraó é continuação de 10.29. O rei podería ter evitado esta catástrofe final se tivesse agido com prudência e sensatez, mas seu coração era excessivamente duro.

A meia-noite (4) da calamidade indicava a hora do dia, mas não de qual dia. Neste julgamento, Deus agiu diretamente sem ação por parte de Moisés. O primogênito sempre se referia a homens, e era o orgulho e alegria dos egípcios. O filho mais velho “era a esperança, o esteio e o sustento da casa, o companheiro do pai, a alegria da mãe, o objeto de reverência do irmão e da irmã”. Era o “príncipe hereditário da coroa” e o sucessor do pai. “Ninguém concebia maior angústia, exceto a matança geral do povo, do que a morte súbita em cada família daquele em torno de quem se construíam os mais sublimes sonhos e as mais profundas esperanças.”64 Nesta noite morreríam os primogênitos, desde o primogênito do palácio do rei até ao primogênito da choupana da mais simples criada (5). A serva que está detrás da mó pode ser “a escrava atrás do moinho manual” (VBB).

Este desastre geraria um grande clamor (6), que ressoaria em toda a terra do Egito. Quem viaja para o Oriente sabe como são estridentes os

gritos que os enlutados dão.60 Este seria o maior clamor jamais ouvido antes ou depois desta desgraça. Neste julgamento, Deus protegeria o seu povo (7). Nem mesmo um cão latiría entre os israelitas — ninguém morrería. Foi Deus que estabeleceu a diferença entre o seu povo e os egípcios.

Moisés previu a urgência dos servos de Faraó. Eles se curvariam diante de Moisés e insistiríam que ele e o povo partissem (8). Neste momento, Moisés prometeu: Eu sairei. Neste ponto, Moisés deu sua última palavra a Faraó; ele nunca mais o veria. Este rei perverso selou sua destruição e estava

pronto para o julgamento final de Deus. Moisés saiu da presença de Faraó em ardor de ira, mas não por estar frustrado. Ele sentia a justa indignação de Deus por causa deste homem que pensava ser bastante forte para desafiar Deus e que por sua obstinação trouxera destruição entre os egípcios. Nada mais restava a Faraó, senão a punição final de Deus. Ele desperdiçou o dia da oportunidade.

c) Resumo geral (11.9-10). Estes dois últimos versículos do capítulo 11 são um resumo geral dos encontros com Faraó. As recusas do rei resultaram nos atos poderosos de Deus. Estas coisas foram preditas (9) e se realizariam (10). Apesar do tirano de coração duro, o Deus Todo-poderoso cumpriría seu propósito e o faria com mão poderosa.

“O Povo de Deus” no capítulo 11 é: 1) Honrado e respeitado pelos inimigos, 2,3; 2) Protegido por Deus das devastações do julgamento, 4-7; 3) Liberto da escravidão pela poderosa mão de Deus, 1,8-10.

Seção II

LIBERTAÇÃO E VITÓRIAS

Êxodo 12.1—18.27

A. A Páscoa, 12.1-36

A libertação de Israel do Egito foi acontecimento extraordinário que sempre seria lembrado por Israel. O termo páscoa tem vários sentidos. O acontecimento em si era a passagem de Deus sobre os filhos de Israel quando o destruidor matasse os primogênitos egípcios (23,27). A festa na época do acontecimento chamava-se a Páscoa do SENHOR (11). Israel celebraria esta festa todos os anos por memória (14). A palavra páscoa é usada para descrever todas estas três situações.

1. As Instruções de Moisés acerca da Primeira Festa da Páscoa (12.1-13)

Deus instituiu um ano novo para Israel. O ano se iniciava costumeiramente no outono com o mês de tisri. Mas agora, o primeiro dos meses do ano religioso seria abibe (13.4), seis meses antes do começo do ano civil.1 Depois do exílio, o mês de abibe tornou-se conhecido por nisã.1

Moisés tinha de instruir os israelitas a tomar um cordeiro para cada casa (3) aos dez deste mês de abibe. O versículo 3 fica mais claro assim: “Cada homem arranjará um cordeiro para sua família paterna, um cordeiro para cada casa” (VBB). Se o cordeiro fosse muito para uma só família, os vizinhos deviam se reunir de acordo com a quantidade de pessoas para que um cordeiro fosse comido (4). A escolha do cordeiro quatro dias antes da festa (cf. v. 6) era para observar o animal. O animal não devia apresentar mácula (5) e tinha de ter menos de um ano de idade. O animal mais novo indicava inocência. Este cordeiro (seh) podia ser uma ovelha ou cabrito, embora na prática só se usassem ovelhas.2

No décimo quarto dia, o cordeiro seria morto à tarde (6, lit., “entre as tardes”). Podia significar entre o pôr-do-sol e o cair da noite ou entre o declínio do sol e o pôr-do-sol. Lange acreditava que era no começo da tarde, pois assim haveria mais tempo para as atividades pascais.3 Moffatt traduz: “Todo membro da comunidade de Israel matará o cordeiro entre o pôr-do-sol e o cair da noite”. O povo colocaria o sangue do cordeiro em ambas as ombreiras e na verga da porta (7), ou seja, “nos batentes dos lados e de cima das portas das casas” (NTLH). Podia ser uma janela guarnecida de treliça que ficava em cima da porta.4 Os israelitas comeriam a carne à noite, depois de tê-la assada ao fogo (8). O texto não identifica as ervas amargosas, mas eram tradicionalmente endívia (tipo de chicória), agrião, pepino, rábano, alface e salsa. O cordeiro era assado inteiro com a cabeça, os pés e a fressura (9) ou as entranhas. “Os comentaristas judeus dizem que os intestinos eram tirados, lavados e limpos, e depois colocados de volta no lugar; assavam o cordeiro em um tipo de forno”.4 Nada ficava do cordeiro até pela manhã seguinte; o que não era comido deveria ser queimado (10).

Podemos entender os detalhes dos versículos 5 a 10 como um tipo de “Cristo, o Cordeiro de Deus”. 1) Era puro e imaculado, 5; 2) Morreu no final da tarde, 6; 3) Aplica seu sangue no coração dos crentes, 7; 4) Torna-se o Substituto para o portador da ira de Deus, 8,9; 5) Tem de ser recebido totalmente pelo crente, 10. Deve ser recebido sem o fermento do pecado e em tristeza de arrependimento segundo Deus, 8.

Enquanto comiam, os israelitas deviam estar prontos para a viagem, com as longas vestes reunidas e presas nos lombos com cinta (11).5 Deviam

estar com os sapatos nos pés e o cajado na mão, enquanto comiam às pressas — ação pelo menos em parte simbólica da prontidão do cristão pela volta de Cristo. Durante a noite, Deus feriria os egípcios e executaria juízos em todos os deuses do Egito (12). Os egípcios reputariam a morte de todos os animais primogênitos do Egito como julgamento sobre seus deuses.6

O sangue vos será por sinal que Deus veria e não feriria quem estivesse na casa onde o sangue fora aspergido (13). - 2

A importante lição desta festa era a completa separação do fermento. Não deveria haver fermento no pão e nem mesmo nas casas (18,19). Toda pessoa que comesse fermento (de forma persistente e consciente) seria cortada da congregação de Israel, quer dizer, perderia os privilégios e

direitos de israelita.3 7 4 5 6 8 9 Esta ordem se aplicava ao israelita de nascença — o natural da terra — e ao estrangeiro que se juntava ao povo de Israel por escolha. Para os israelitas, o pão não levedado era sinal de que entraram numa nova vida com Deus, livres dos males do Egito. O

fermento é tipo de corrupção causada por fermentação.11 12 Simboliza a velha vida de pecado e a natureza pecaminosa no homem. Paulo escreveu: “Alimpai-vos, pois, do fermento velho. [...] Pelo que façamos festa, não com [...] o fermento da maldade e da malícia, mas com os asmos da sinceridade e da verdade” (1 Co 5.7,8). Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento é claro o ensino de limpeza total de todo o pecado.

3. As Instruções para os Anciãos (12.21-28)

Agora Moisés estava pronto para comunicar o que Deus lhe dissera. Como é necessário o homem de Deus saber em primeira mão qual é mensagem a entregar! Deviam usar um molho de hissopo para aplicar o sangue do cordeiro na verga da porta, e em ambas as ombreiras (22). Esta planta era muito “apropriada para aspergir sangue” e “por seu uso freqüente para este propósito veio a ser símbolo de purificação espiritual” (cf. SI 51.7).13 A ordem era para que os israelitas esperassem até à manhã para saírem da casa onde o sangue fora aspergido (22).

Moisés assegurou aos anciãos que o Senhor passaria sobre Israel quando fosse ferir os egípcios com o destruidor (23). O primogênito não seria atingido quando Deus visse o sangue. Era necessário providenciar o

sangue e que este fosse aspergido — fato significativo para nossos dias em referência à expiação de Cristo (1 Pe 1.18,19). Este culto (25, a atividade da noite) seria renovado anualmente como lembrança, ou lição prática, para os filhos (24-27). Quando os israelitas se inteiraram dos planos de Deus, inclinaram-se e adoraram (27). A promessa de Deus de favorecê-los com exclusividade os fez humildes e despertou neles emoções santas. Tendo encontrado Deus na adoração, foram os filhos de Israel e fizeram... como o SENHOR ordenara (28).

Não só Faraó e seus servos, mas todos os egípcios apertavam ao povo israelita para que fossem logo embora. “Os egípcios pressionavam o povo para que se apressasse em sair do país” (NVI). Temiam que todos fossem mortos (33). A tradução de Moffatt do versículo 34 indica a pressa com que o povo de Israel saiu: “Assim o povo agarrou apressadamente a massa, antes mesmo de levedar, e embrulhou as amassadeiras nas roupas, levando-as nos ombros”. Já haviam pedido jóias dos egípcios em tamanha quantidade que os egípcios ficaram empobrecidos (35,36). Temos a impressão que muitos ajudaram Israel a se aprontar antes mesmo da Páscoa. Agora insistiam que fossem depressa. Foi assim que Israel fugiu da escravidão egípcia depois de espantosa noite de vitória. O verbo hebraico sha’el (“pediram”, 35) pode ser traduzido igualmente por “pediram” ou “exigiram”. Os hebreus tinham a receber quantia considerável em salários pelo trabalho involuntário e não pago.

A vitória de Deus para Israel trouxe “A Grande Salvação” observada nos versículos 26 a 36. 1) O pré-requisito: Os filhos de Israel fizeram como o SENHOR ordenara, 26-28; 2) A proteção: O SENHOR passou sobre as casas dos filhos de Israel, 27,29,30 (cf. ARA); 3) A provisão: O SENHOR deu graça ao povo, 31-36.

B. O Êxodo, 12.37—15.21

1. A Partida do Egito (12.37-42)

a) O número dos que se puseram em marcha (12.37-39). No dia seguinte à noite da morte dos primogênitos dos egípcios, partiram os filhos de Israel para Sucote (37). Não sabemos a localização certa deste lugar, embora fosse viagem curta de um dia de Ramessés para o leste em direção ao mar Vermelho (ver Mapa 3). Deve ter sido tarefa custosa levar

este grande grupo a um ponto central; talvez tivessem feito um planejamento para quando o momento da vitória chegasse.

Muita controvérsia gira em torno da questão do número de israelitas que saiu do Egito. Os estudiosos liberais, pouco propensos a considerar providência milagrosa, recusam-se a aceitar um número alto como implica o montante de seiscentos mil homens.15 Contestam a possibilidade de a população israelita aumentar tanto levando em conta o tempo decorrido e as condições adversas descritas. Também rejeitam a possibilidade de tantas pessoas sobreviverem no deserto. Existe a indicação de que a palavra hebraica que se refere a mil (elep) “possa ser traduzida por ‘clã’ ou ‘família’, como ocorre em outros lugares da Bíblia (e.g., Jz 6.15)”.16 Neste caso, o número total de 600 clãs seria bem menos.

Mas considerando a bênção especial de Deus, aceitamos que Israel crescera a uma população estimada de quase três milhões de pessoas.17 Sob o poder especial de Deus, as provisões no deserto teriam sido adequadas.

A mistura de gente (38) que partiu com Israel eram egípcios que se ligaram a Israel e sua religião; também eram escravos estrangeiros que, por esse meio, buscavam liberdade, e pessoas que tinham se casado com os hebreus. Mais tarde, essa gente se tornou tropeço para Israel (Nm 11.4). E interessante observar que Israel possuía ovelhas e vacas. Estes rebanhos já eram deles antes das pragas e foram protegidos da destruição (9.4). O registro bíblico não explica como os israelitas poderiam possuir tanto gado no Egito. Conjeturamos que as bênçãos de Deus estavam sobre Israel durante a escravidão. Chadwick sugere que pode ter havido uma revolta antes desta época, a qual concedeu certos privilégios para estes escravos no Egito.18 Em todo caso, Deus lhes abastecera com grande multidão de gado.

A partida súbita do Egito pegou os israelitas até certo ponto desprevenidos, pois não haviam preparado comida (39) para a viagem. Só comeram bolos asmos. Este era o tipo de alimento que deveríam comer por sete dias durante a festa comemorativa (15).

b) A data da partida (12.40-42). O tempo que os filhos de Israel habitaram no Egito foi de quatrocentos e trinta anos (40). O autor não especifica se toda essa estadia foi só no Egito, ou também incluía o

tempo na Palestina. Paulo (G1 3.17) dá a entender que a lei foi dada 430 anos depois de Abraão. Mas Estêvão (At 7.6) disse que Israel ficou na escravidão em terra estrangeira por 400 anos. O número redondo 400 concorda com o número que aparece em Gênesis 15.13, cuja passagem também indica que estes anos foram passados em aflição. E seguro presumir que o autor quis se referir aos anos passados na terra do Egito.19 Na realidade, o tempo foi datado no relógio de Deus com uma exatidão que comprovava a Palavra divina (41).

Que noite inesquecível! “Essa foi a noite em que o SENHOR ficou vigiando” (NTLH); manteve seus filhos sob observação cuidadosa (42). No futuro, todas as gerações de israelitas a celebrariam como “noite da vigília”. Para Israel, foi como o dia em que nasceram de novo; os cristãos o celebram como o dia feliz em que seus pecados foram lavados pelo sangue de Jesus!

2. A Lei da Páscoa (12.43—13.2)

Moisés recebeu mais instruções pertinentes à celebração da Festa da Páscoa: 1) O filho de estrangeiro não deveria comer a Páscoa (43); 2) estrangeiros e servos, depois de circuncidados, tornavam-se israelitas e poderiam comer a Páscoa (44,48); 3) deviam comer o cordeiro numa casa e nada dele podería ser levado para fora da casa (46); 4) não podiam quebrar osso algum do cordeiro (46); 5) a mesma lei se aplicava ao natural e ao estrangeiro (49).

Os últimos três pontos enfatizam a unidade na comunhão. Não devia haver divisão na congregação de Israel — o cordeiro era um e o povo era um. Assim, em Cristo todos são um; as divisões não têm lugar em seu corpo (1 Co 1—3).

A resposta dos israelitas foi imediata (50). A recente vitória tornou seus corações obedientes. Quando Deus trabalha, a vitória é completa. Exércitos (51), melhor “turmas” (NVI) ou “tribos” (NTLH). Mas as bênçãos de Deus dadas a um povo trazem responsabilidades. Visto que o Senhor poupara homens e animais, agora estes deveríam ser consagrados a Ele (2). Deus pediu a estes homens que lhe dessem o que lhe era devido.

O verbo santificar conforme é usado aqui e ao longo do Antigo Testamento tem o significado de “consagrar ou separar” para propriedade especial de Deus, tendo paralelo no significado do Novo Testamento que inclui pureza

moral (Ef 5.25-27; Hb 9.13,14). Neste sentido mais amplo do Antigo Testamento, o termo santificar é usado para se referir a pessoas e coisas.

3. O Discurso de Moisés (13.3-16)

a) O dia da recordação (13.3-10). Moisés tinha de relatar ao povo as instruções que Deus lhe dera. Os versículos 3 a 7 repetem grande parte do que aparece em 12.14-20 (ver comentários ali). No versículo 5, Moisés nomeou cinco das sete nações cuja terra Israel herdaria. As outras duas eram os ferezeus e os girgaseus que provavelmente eram menos importantes (cf. CBB, vol. II).

A importância de lembrar este mesmo dia (3) devia ser passada para os filhos (8). O sinal sobre tua mão e a lembrança entre teus olhos (9) não seriam os escritos físicos ou “filactérios” (cf. Dt 6.4-8).20 O que devia ser lembrado era a festa e as palavras da boca que vêm do coração.21 Em certa medida, os objetos físicos ajudam a lembrar os atos graciosos de Deus, mas o meio mais eficaz de transmissão é a lei do SENHOR... em tua boca (9) — o coração transbordante de louvor e testemunho passado para os filhos. Deus sabe que os homens o esquecem com facilidade, por isso ordenou: Tu guardarás este estatuto a seu tempo [“no dia certo”, ARA] de ano em ano (10).

bj A consagração dos primogênitos (13.11-16). Outra lembrança constante era a entrega dos primogênitos a Deus (2,12) e as respostas às perguntas dos filhos (14) a respeito das cerimônias. Todos os primogênitos machos do gado pertenciam a Deus (12) e deveríam ser oferecidos em sacrifício ao SENHOR (15). Tudo o que abre a madre (15) diz respeito a “todos os machos que abrem a madre” (ARA). O vocábulo tudo aqui deve ser considerado alusão a animais limpos.22 Os animais imundos, como os jumentos (13), tinham de ser resgatados pela substituição de um cordeiro ou cabrito. Se não fossem resgatados, os animais imundos deveríam ser mortos. O jumento é mencionado porque foi o único animal de carga levado do Egito.

Para os meninos havia um arranjo especial. Considerando que não podiam ser sacrificados como oferta, tinham de ser resgatados (15). Mais tarde, a obrigação do serviço a Deus foi transferida para os levitas, e o preço da substituição pelo primogênito macho foi fixado em cinco siclos (Nm 3.47).23

Este pagamento servia como reconhecimento do direito de Deus sobre os primogênitos.

A razão para esta exigência é clara. Deus tirou Israel do Egito matando os primogênitos (15) egípcios. Portanto, os israelitas deveríam contar a história repetidamente a todos os filhos, sobretudo ao primogênito. Este ato redentor e sacrifical deveria ser uma lembrança — por sinal sobre tua mão e por frontais entre os teus olhos 116; ver comentários sobre o v. 9).

4. A Coluna de Nuvem e a Coluna de Fogo (13.17-22)

A rota direta e norte entre o Egito e a Palestina (ver Mapas 2 e 3) tinha aproximadamente 320 quilômetros e podia ser percorrida em cerca de duas semanas. Quando Deus tirou os israelitas do Egito, Ele os levou por um percurso mais longo a fim de evitar o encontro com os filisteus (17) bélicos. Os filhos de Israel não eram treinados para a batalha e a fé em Deus ainda era fraca. Eles poderíam se arrepender quando vissem a guerra e voltar para o Egito. O Senhor conhecia a força limitada do seu povo e o protegeu de tentações inadequadas (ver 1 Co 10.13). Por vezes, os caminhos de Deus não são os mais simples e diretos. Ele guiou Israel pelo caminho do deserto perto do mar Vermelho (18; ver comentários sobre o mar Vermelho em 14.2).

A palavra armados (18), embora termo militar no original hebraico, deve ser referência à maneira organizada da marcha. Moffatt diz: “Os israelitas saíram do Egito em formação metódica”. Esta organização pode ter sido planejada durante o período de disputa com Faraó.24

Atendendo ao pedido de José quando estava morrendo (Gn 50.25), Moisés levou os ossos (19) deste patriarca. Pode-se afirmar que Moisés sabia de tudo sobre este antigo líder e que se fortaleceu na fé pela firme esperança que havia em José. No devido tempo, Israel enterrou respeitosamente os ossos de José na terra de Canaã (Js 24.32).

A próxima parada de Israel depois de Sucote foi Etã, à entrada do deserto (20; ver Mapa 3). A localização destes lugares é incerta, em grande parte por que não sabemos o ponto exato da travessia do mar Vermelho.25 Mas onde quer que tenha sido o local, Deus era o Líder. Ele

aparecia diante de Israel na forma de uma coluna de nuvem (21, provavelmente de fumaça) de dia, e uma coluna de fogo, à noite. A coluna ficou bastante tempo com Israel servindo de guia nas viagens. Simbolizava o Espírito Santo, um Fogo (Mt 3.11), que guia o cristão no andar cotidiano.

Vemos “ALuz Guia de Deus” nos versículos 17 a 22.1) Conduz os filhos de Deus para longe dos caminhos de maior perigo, 17; 2) Leva, às vezes, por caminhos circulares passando por lugares indesejáveis, 18a; 3) Dirige de forma ordeira e obediente, 18b; 4) Lidera com provas incontestáveis de que Ele está com eles, 21,22.

5. A Travessia do Mar Vermelho (14.1-31)

a)    Um lugar arriscado (14.1-4). Visto que o texto bíblico não anuncia o local preciso onde ocorreu a travessia, é melhor presumir que os filhos de Israel iniciaram a jornada da terra de Gósen (ver Mapa 3) rumo à fronteira do Egito, onde cruzaram para entrar no deserto. Em seguida, Deus lhes ordena que voltem (2; “retrocedam”, ARA) e acampem junto ao mar. Não há como definir se viraram para o norte, em direção ao lago Manzalé,26 ou para o sul, em direção aos lagos Amargos.27 O que está claro é que havia um volume de água diante deles como obstáculo ao cruzamento.

Faraó começou a reavaliar a libertação dos escravos. Talvez soube da jornada aparentemente a esmo, e supôs que estivessem embaraçados na terra (3) e que o deserto os encerrara. Para ele, o Deus dos israelitas, embora poderoso no Egito, era impotente no deserto. Pensou que estavam irremediavelmente perdidos. Lógico que Israel teria sido destruído se não fosse a intervenção do Deus Todo-poderoso. Por vezes, Ele nos coloca em situações de aperto para nos livrar e nos mostrar que Ele é o SENHOR (4).

b)    A perseguição de Faraó (14.5-9). Irritados pela recente derrota e frustração causada pela perda de tantos trabalhadores (5), Faraó e seus servos (os conselheiros) mudaram de idéia. Pensando que Israel estava praticamente encurralado no deserto, o rei aprontou o seu carro e tomou consigo o seu povo (6; “exército”, NVI). Também tinha seiscentos carros escolhidos (7) e muitos outros que conseguira reunir sem demora (pensamento subentendido na expressão todos os carros).28

Com esta força militar humana, Faraó saiu apressadamente em perseguição dos israelitas. Seu coração duro ficou mais duro ainda, porque, para ele, estes escravos tinham saído com alta mão < 8; “afoitamente”, ARA; “triunfantemente”, NVI). Contraste esta condição com o grande medo que logo sentiríam (10). Foi a toda velocidade ao local onde estavam acampados junto ao mar (9; ver Mapa 3). Pi-Hairote significa “lugar de juncos, no lado egípcio do mar Vermelho” (VBB, nota de rodapé).

c)    O medo do povo (14.10-12). Vendo o exército de Faraó se aproximando, o coração dos israelitas se derreteu, levando-os a clamar ao SENHOR (10). Foi um clamor desesperado, porque viam nada mais que a morte diante de si; só restava repreender Moisés por tê-los tirado do Egito para morrerem no deserto (11). Para eles, a escravidão era melhor que a morte, e Moisés deveria tê-los deixado em paz no Egito (12). Em termos de um slogan dos dias atuais, eles sentiam que seria melhor sofrer e estar vivo do que

não sofrer e estar morto.

Estes israelitas, como tantos novos-convertidos, embora libertos da escravidão do trabalho forçado, ainda possuíam “um coração mau e infiel”. Estavam com muito medo e cheios de dúvida, logo esquecendo os atos poderosos de Deus feitos a seu favor. Tinham concordado com os líderes, mas agora, diante da iminente catástrofe, a falta de compromisso sério se revelou.

d)    O propósito de Deus (14.13-18). Como é freqüente a fé fraquejar justamente quando Deus está pronto para fazer sua maior obra! Mas Deus tinha seu homem de fé. O texto não diz o quanto Moisés tremia por dentro, nem é perceptível que ele já soubesse o que Deus ia fazer. Mas os encontros que teve com Deus lhe deram a certeza de que Deus estava no controle. Não havia nada que as pessoas poderíam fazer, exceto aquietar os temores, ficar quietas e ver o livramento do SENHOR (13). Deus disse a Moisés (4) que ocorrería outra vitória, e ele creu na palavra de Deus. Ele pôde declarar: O SENHOR pelejará por vós, e vos calareis (14). “Tão-somente acalmem-se” (14b, NVI).

Não havia necessidade de mais clamores a Deus. Chegara o momento de marchar. Tratava-se de uma marcha de fé, pois diante deles só havia águas traiçoeiras; mas a ordem de Deus era clara: Marchem (15). Em nosso andar espiritual, chegamos a um ponto em que as orações medrosas cessam e o passo de fé deve ser dado.

Todas as vezes que os filhos de Israel temeram o desamparo de Deus, Ele estava trabalhando em seus propósitos. A barreira de água à frente deles se dividiría quando a mão de Moisés se estendesse com a vara (16). O coração duro de Faraó o levaria a se apoiar demasiadamente na bondade Deus e seguir Israel, mas o plano de Deus era destruir o exército egípcio para, assim, obter glória e honra para si (17). Seria tarde demais para Faraó e seus cavaleiros (18), mas o restante dos egípcios sabería quem é o SENHOR.

No versículo 15, observamos o desafio de Deus ao seu povo: “Marchem!” 1) A história os impulsionava para frente, 1.13,14; 2) O presente os empurrava para frente, 14.9,10; 3) O futuro os estimulava para frente, 3.8; 14.13,14 (G. B. Williamson).

e)    A coluna de proteção (14.19,20). O Anjo de Deus (19), chamado “o anjo do SENHOR” em 3.2, que estava na frente de Israel, passou agora para trás do acampamento. O movimento invisível de Deus foi verificado no movimento visível da coluna da nuvem, que se retirou de diante dos israelitas e se pôs atrás deles. Esta coluna ficou entre os dois acampamentos, impedindo os egípcios de chegar perto de Israel toda a noite (20). A coluna trouxe escuridade para os egípcios, enquanto que Israel tinha luz no acampamento.29

Vemos nos versículos 10 a 20, o processo de “Como Vencer o Medo”. 1) Ficamos amedrontados ao ver o poder de Satanás, 10; 2) Expressamos nossa angústia pelas providências de Deus, 11,12; 3) Sentimos alívio quando a palavra de Deus é dada com clareza, 1318; 4) Aquietamo-nos completamente quando a presença de Deus se manifesta, 19,20.

f)    O caminho pelo mar (14.21-25). Naquela noite, quando Moisés estendeu a sua mão sobre o mar... as águas foram partidas (21). Um forte vento oriental fez o

mar se tornar em seco, talvez para secar o leito de onde as águas recuaram. Devemos ser cautelosos em não forçar a linguagem poética (15.8; SI 78.13) em rígida expressão literal e concluir que as águas desafiaram a gravidade ou se congelaram em bloco sólido.30 A palavra muro (22) se refere à barreira de água que ficou em ambos os lados de Israel enquanto atravessavam em marcha.31

O registro bíblico não determina a distância do cruzamento pelo mar e a largura da passagem. A área era suficiente para que quase três milhões de pessoas atravessassem em uma noite e bastante ampla para que todos os exércitos de Faraó ficassem no meio do mar (23). Ou os egípcios consideraram a abertura no mar uma ocorrência natural ou então, na sua dureza, se apoiaram na misericórdia de Deus quando marcharam pela abertura. O texto não diz se Faraó entrou com o exército, mas todos os seus cavalos, carros e cavaleiros (23) entraram (o v. 9 não registra a entrada do “exército”).

Na vigília daquela manhã (24), entre duas e seis da manhã,32 Deus alvoroçou os egípcios. Pode ser que a coluna diante dos egípcios tenha começado a lampejar, talvez com raios. Os egípcios ficaram com medo e passaram a ter problemas com as rodas dos carros (25), que emperravam (ARA) ou atolavam (NTLH), de forma que transitavam dificultosamente. Pelo visto, o leito seco do mar estava afundando com o peso dos cavalos e carros. Disseram: Fujamos... porque o SENHOR por eles peleja contra os egípcios. Mais uma vez, estes ímpios reconheceram o poder de Deus. A confusão dos egípcios deu tempo para Israel completar a travessia e para todos os egípcios ficarem no leito do mar.

g) A morte dos egípcios (14.26-31). Deus inverteu a ação e as águas voltaram ao lugar (26). O texto não declara se houve uma reversão do vento (ver 15.10). O retorno das águas foi tão súbito e forte que alcançou os egípcios quando tentavam fugir e os matou (27,28). As mesmas águas que serviram de muro para o povo de Deus (29) tornou-se meio de destruição para os egípcios.

Esta última disputa entre Deus e Faraó, resultando em vitória final e completa para o Senhor, impressionou fortemente os israelitas. A situação parecia desesperadora na noite anterior. Agora Israel viu os egípcios mortos na praia do mar (30). As águas turbulentas, ou a maré, levaram os corpos à praia. O Senhor salvara os israelitas; toda a prova necessária estava diante dos olhos deles.

Quando viu Israel a grande (31) obra, temeu o povo ao SENHOR e creu. Este ato poderoso expulsou o medo que os atormentara (10) e implantou um verdadeiro temor de Deus — um temor que conduziu a uma fé viva. Com esta manifestação, “os israelitas distinguiriam o Libertador

misericordioso do Juiz santo dos descrentes, a fim de que crescessem no temor de Deus e na fé que já haviam mostrado”.33 A palavra hebraica traduzida por creu (31) significa “confiou” (ARA); este tipo de fé toma conta da pessoa. O povo podia entregar os problemas a Deus e acreditar em Moisés, seu servo, porque a fé se tornou mais personalizada.

Nos versículos 10 a 31, vemos “A Libertação Poderosa de Deus”. 1) A favor de um povo temente, 10-15; 2) Com poder sobre os obstáculos da natureza, 16,19-24; 3) Dos inimigos rebeldes de Deus, 17,18,25-28; 4) Na criação de um povo crente, 29-31.

6. Os Cânticos de Libertação (15.1-21)

a) O cântico de Moisés (15.1-19). O que é mais natural que cantar canções de louvor quando Deus concede tremendas libertações? Depois de um período de forte opressão e uma noite escura de desespero, dar-se conta de que a vitória de repente veio é fato que traz ondas de alegria ao coração. A Bíblia registra este cântico de Moisés, o qual se tornará o título da canção dos remidos no último dia (Ap 15.3).

Os críticos afirmam que este cântico, ou certos trechos, foi composto muito depois dos dias de Moisés e inserido aqui por editores.34 Baseiam suas opiniões principalmente em idéias encontradas nos versículos 13 e 17, que falam sobre a habitação da tua santidade e o lugar da habitação de Deus, o santuário. O argumento pressupõe que Moisés não podería ter sabido destes conceitos que ainda estavam no futuro de Israel. Mas quem aceita o fato da inspiração divina para homens como Moisés não vê problemas nisso. O uso do passado ou presente proféticos (como no v. 13) não é incomum no Antigo Testamento (e.g., Is 9.6). A simplicidade do poema e seu poder de descrição “indicam que os dias de Moisés foi o tempo da composição do poema”.35

(1) Deus é o Herói (15.1-3). Deus é grande, pois Ele lançou no mar o cavalo e o seu cavaleiro (1). O SENHOR, que é a força e o cântico, também é a salvação (2) do

cantor, bem como o Deus de seu pai (seu antepassado). A frase lhe farei uma habitação é mais bem traduzida por “eu o louvarei” (ARA). Sua

vitória sobre os egípcios provou que Deus era varão de guerra (3), antropomorfismo que descreve seu poder na batalha. Este tipo de linguagem para se referir a Deus em termos humanos encontra-se por todo o Antigo Testamento. Seu nome é Yahweh, traduzido por o SENHOR, ainda que Faraó não o reconhecesse.

(2)    O Senhor, supremo sobre todos (15.4-12). Adestra (6) ou mão direita do Senhor, outro antropomorfismo, destruiu os inimigos afundando-os no mar, os quais desceram às profundezas como pedra (5). Sob o olhar de Israel, os capitães armados foram submersos pela inundação que voltava. Deus, que é excelente em majestade, derrotou os adversários e em furor os consumiu como restolho (7). O texto descreve que o vento que moveu as águas foi como o sopro dos narizes de Deus (8). A linguagem poética usa analogias humanas para descrever a atividade de Deus sem se prender a literalismo rígido. Quando Deus se moveu, as águas ficaram como um montão, e os abismos coalharam-se no coração do mar. Estas palavras podem ser referência às águas que

se amontoaram como muros em cada lado de Israel,36 ou diz respeito ao fechamento das fontes de onde as águas vinham.37

O versículo 9 mostra a atitude desafiante do inimigo. Vemos a soberba de sua autoconfiança e desejo (alma). Mas quando Deus soprou com o seu vento, eles foram submersos (10). Aqui há a sugestão de um fato novo: o vento também foi usado para fazer as águas do mar retrocederem. Deus é maior que todos os deuses (11); nada se iguala à sua glória, santidade e poder. Esta é a primeira menção explícita da santidade de Deus no Antigo Testamento (cf. 3.5). Ele estendeu a mão direita e a terra os tragou

(12) . O mar é considerado parte da terra.

(3)    O Senhor é o Rei de Israel (15.13-19). Deus guiou e salvou seu povo

(13) ; Ele os >s guiou (está guiando-os).38 A habitação da tua santidade é alusão certa à Terra Prometida. Conforme o autor antevia o movimento rumo à Palestina (o termo palestina provém do nome do inimigo, Filístia), ele via a preocupação e o medo tomarem conta dos habitantes, por causa do poder de Deus (14). Edom, os moabitas e Canaã (15) sentiram um medo terrível. Espanto e pavor, causados pela grandeza do braço de Deus (16), imobilizaram os inimigos até que Israel cruzasse a fronteira. O

assentamento final em Canaã era certo. O poema fala com tanta certeza do assentamento na terra e o levantamento do santuário, realizações que ainda estavam no futuro, como se já fossem fatos (17). O Senhor reina eterna e perpetuamente (18), enquanto o exército de Faraó foi destruído e o povo de Israel, poupado (19). O escritor do cântico transbordava de alegria por causa deste tremendo acontecimento.

b) O Cântico de Miriã (15.20,21). Pelo visto, Miriã, a irmã de Arão (20), tinha a posição igual a Arão, mas não igual a Moisés. Era profetisa, a primeira mencionada na Bíblia. O tamboril era um pandeiro. “Danças solenes como expressão de adoração, embora apropriadas no tempo de Moisés e dos salmistas, são sujeitas a abuso e nunca encontraram boa receptividade no culto de adoração da igreja cristã.”39

Supomos que quando Miriã lhes respondia (21; cf. v. 1), ela e as mulheres cantavam as palavras deste refrão em resposta a cada uma das partes do Cântico de Moisés. Tocavam instrumentos e se movimentavam com graça entre as cantoras numa “dança imponente e solene”.40

C. A Viagem para o Monte Sinai, 15.22—18.27

1. Em Mara e em Elim (15.22-27)

Os israelitas andaram três dias no deserto (a leste do mar Vermelho) e não acharam água (22). A fé do povo precisava de mais provas. Uma grande vitória como a travessia do mar Vermelho proporcionou uma visão maravilhosa da onipotência de Deus; mas não treinou a fé para os problemas cotidianos. A necessidade diária de comida e bebida prova a fé do povo mais que os obstáculos maiores. Mas Deus estava treinando seu povo em todos os aspectos da vida, por isso os levou às águas amargas de Mara (23; ver Mapa 3). Imagine a comovente decepção de pessoas sedentas encontrando água e verificando que era impotável.

Viajantes nesta região do deserto de Sur (ou de Etã, Nm 33.8) confirmam que as fontes são extremamente amargas, que o lugar é “destituído de árvores, água e, exceto no começo de primavera, pastagens”.41

O povo murmurou contra Moisés (24). A liderança é cara, porque a culpa pela adversidade recai nos líderes. Estas pessoas sabiam que Moisés

era homem de Deus; por isso, o pecado também era contra Deus. Grandes experiências com Deus não curam necessariamente o coração mau e queixoso. A murmuração cessa apenas quando crucificamos o eu e entronizamos Cristo somente (Ef 4.31,32).

A única coisa que Moisés podería fazer era clamar ao SENHOR (25). Não há dúvida de que Deus teria fornecido água potável em resposta à fé paciente de Israel, se tivessem permanecido firmes. O Senhor às vezes satisfaz nossos caprichos em detrimento da fé. Aqui, as águas se tornaram doces, quando Moisés lançou um lenho nelas, mas a fé de Israel continuou fraca. Desconhecemos método natural que explique este milagre.

Deus usou esta ocasião para ensinar uma lição a Israel, dando-lhes estatutos e uma ordenação (25). Se as pessoas ouvissem a Deus e obedecessem inteiramente à sua palavra, elas seriam curadas de todas as enfermidades que Deus tinha posto sobre o Egito (26). Assim como Deus curou as águas amargas de Mara, assim Ele curaria Israel satisfazendo-lhes as necessidades físicas e, mais importante que tudo, curando o povo de sua natureza corrompida. Deus queria tirar o espírito de murmuração do meio do povo e lhe dar uma fé forte.

Nem todas as experiências da vida são amargas. O próximo acampamento de Israel foi em Elim, oásis com doze fontes de água (uma para cada tribo) e setenta palmeiras (27). Tivesse Israel suportado a amargura das águas de Mara, logo estaria festejando em Elim. A pouca paciência de muitos crentes embota o fio aguçado da vitória alegre quando esta ocorre. Elim era um lugar bonito para acampar, mas não era o destino dos israelitas.

2. O Maná e as Codornizes (16.1-36)

a) Outra murmuração de Israel (16.1-3). Israel deveria ter aceitado os “estatutos” de Deus e crido em sua “ordenação” (15.25). O fato de não terem agido assim resultou em mais reclamações. Tinham deixado para trás um deserto (Sur) e entrado em outro (Sim) a caminho do monte Sinai e já fazia um mês que viajavam (1). Pelo visto, o suprimento de comida estava diminuindo e não havia evidência externa de novas provisões.

Deus permitiu que o problema surgisse como prova para a fé de Israel.

Mas o povo murmurou contra Moisés e contra Arão (2), desejando ter

morrido no Egito com os estômagos cheios em vez de morrer de fome no deserto (3). Parece que comiam bem no Egito, e agora as coisas estavam piores. Claro que o alimento é necessário para a vida física, mas Deus não esquecera do povo. Ele teria suprido as necessidades de maneira mais satisfatória se Israel tivesse permanecido pacientemente firme na fé.

b) A promessa de pão e carne (16.4-12). Não há que duvidar que o tempo todo Deus sabia como alimentaria os israelitas no deserto. Quando murmuraram, o Senhor revelou seu plano de fornecer pão dos céus (4) para colherem a porção para cada dia — “a ração para cada dia” (Smith-Goodspeed). Até no fornecimento de pão Deus faria uma prova: Queria ver se o povo andaria em sua lei ou não. No sexto dia, as pessoas achariam quantidade suficiente de pão para durar dois dias, em cumprimento da lei do sábado (5).

Deus queria que estes israelitas soubessem que aquele que os tirou do Egito ainda estava com eles. A tarde sabereis (6) e amanhã vereis (7). A glória mencionada no versículo 7 diz respeito à realização da mão de Deus no suprimento do pão, ao passo que a glória referida no versículo 10 era a manifestação especial de Deus na nuvem.

Moisés repreendeu os israelitas por murmurarem contra ele e Arão, pois nada significavam — era Deus quem os conduzia (7). Quando Deus lhes desse carne e pão para comer, eles saberíam que o Senhor ouvira as murmurações feitas contra ele (8). De certo modo, fornecer comida desta maneira era uma repreensão. Deus não forneceu comida só porque reclamaram; Ele queria que soubessem que Ele era o Senhor e que não estava contra seus servos, mas contra quem murmurava.

Os filhos de Israel seriam humilhados diante de Deus. Arão os reuniu, dizendo: Chegai-vos para diante do SENHOR, porque ouviu as vossas murmurações (9). Quando se aproximaram e olharam para o deserto, de repente a glória do SENHOR apareceu na nuvem (10). “A prova inconfundível da presença de Deus na coluna de fogo autenticou as palavras de Moisés e preparou o povo para a glória mais encoberta do milagre que ocorrería.”42 A glória do Senhor deu a estes fracos seguidores de Deus a oportunidade de ver o mal dos seus corações quando contemplassem a fidelidade de Deus para com eles. Com a realização do

milagre da carne e do pão, eles saberiam que o SENHOR era o seu Deus (12). Ele teve paciência com estes crentes fracos, cuja fé necessitava de crescimento; em outra época, depois de terem tempo para amadurecer (Nm 14.11,12), eles foram punidos por causa da permanência na incredulidade.

c) Deus envia codornizes e pão (16.13-21). As codornizes, que subiram cobriram o arraial (13), faziam seu trajeto habitual de migração “pelo mar Vermelho, em grande quantidade nesta época do ano, e, cansadas pelo vôo longo, [...] podiam ser capturadas facilmente perto do chão”.43

Na manhã seguinte, houve um orvalho ao redor do acampamento (13). Quando o orvalho se secou, encontraram “uma coisa fina e semelhante a escamas, fina como a geada sobre a terra” (14, ARA). Quando viram, as pessoas perguntaram: Que é isto? (15). Moisés respondeu: Este é o pão que o SENHOR vos deu para comer. “O nome maná é proveniente da pergunta [Que é isto?], ou a semelhança no som tem relação com as duas palavras originais [man hu].’u

Há quem procure identificar o maná bíblico com as substâncias naturais encontradas nesta região. Embora semelhantes em certos aspectos, estas substâncias naturais não se ajustam à narrativa bíblica. Não surgem em grande quantidade, nem podem ser o principal alimento. Ocorrem somente durante curto período do ano. O maná da Bíblia: 1) Foi o principal alimento nutritivo para Israel por quarenta anos; 2) Era fornecido em quantidades grandes; 3) Ocorria ao longo do ano inteiro; 4) Aparecia somente em seis dos sete dias da semana; e 5) Criava bichos se fosse guardado por dois dias, exceto no sábado.45 Obviamente este maná era um milagre de Deus, sendo um tipo do Cristo que desceu do céu (Jo 6.32-40).

As instruções para colher o maná eram inequívocas. Cada família tinha de colher quantidade suficiente para o consumo de um dia: um gômer por cabeça (16), cerca de

1,3 litro, e segundo o número de pessoas da família. Pelo milagre do aumento ou da diminuição de acordo com a necessidade vigente,46 não sobejava para quem colhesse muito, nem faltava para quem colhesse pouco (18).

Moisés foi claro em dizer que nada do maná deveria ser deixado para o dia seguinte (19). Alguns israelitas, que ainda precisavam aprender acerca da obediência explícita, guardaram uma provisão de maná até o dia seguinte, mas criou bichos e cheirava mal (20). Considerando que o maná guardado para o sábado não estragava (24), ficou evidente a desobediência dos ofensores, os quais foram punidos com a deterioração do alimento.

Neste episódio, a lição de Deus para Israel, como também para os cristãos, é que os crentes têm de depender de Deus dia após dia. A vida de Cristo no cristão é preservada a cada momento por sua permanência em Deus. A obediência diária e cuidadosa resulta em provisão regular; o descuido traz perturbação e julgamento. Israel aprendeu a colher o maná pela manhã, antes que o sol o derretesse (21); o alimento espiritual colhido de manhã cedo suporta o calor do dia.

d) A observância do sábado (16.22-31). No sexto dia, quando alguns israelitas colhiam quantidades duplas de maná, todos os príncipes da congregação (22) não entenderam. Moisés repetiu a regra sem deixar dúvidas: Não haveria maná no sábado (25). No sexto dia, eles tinham de cozer no fogo (assar) ou cozer em água (ferver; usado como pão ou mingau) o que precisavam e guardar para o dia seguinte (23). Aprenderam que o maná guardado para o sétimo dia não se estragava (24).

Estes versículos indicam um conhecimento do sábado anterior ao recebimento dos Dez Mandamentos (20.8-11). Deus estabeleceu um dia de descanso na criação do mundo (Gn 2.2,3); este fato era provavelmente conhecido por Abraão, visto que em certo sentido era observado pelos babilônios. Mas nem os primitivos hebreus nem os egípcios conheciam uma semana de sete dias.47 Levando em conta que depois da criação o sábado é mencionado somente neste momento, podemos supor que esta é uma renovação da observância sabática. Durante a opressão egípcia, a observância teria sido impossível; portanto, para estas pessoas as palavras de Moisés eram novidade.48

Embora Moisés tivesse deixado claro que não haveria pão no dia de sábado (26), mesmo assim alguns do povo saíram para colher (27). Sempre há quem não acredita na palavra de Deus, desta forma recusando guardar seus mandamentos e leis (28). A ordem tornou-se mais explícita: Ninguém deveria sair do seu lugar no sétimo dia (29).

Ninguém deveria sair do acampamento; as pessoas tinham de descansar no sétimo dia (30). Ver mais comentários sobre o sábado em 20.8-11.

O maná era como semente de coentro (31), “uma semente pequena e cinzento-branca, com sabor picante e agradável, usada amplamente como tempero para cozinhar”.49 Tinha gosto de bolos feitos de farinha de trigo, óleo e mel. O alimento que Deus dava era agradável ao paladar.

e) O maná comemorativo (16.32-36). Moisés, sob ordens divinas, ordenou que fosse colocado diante do SENHOR um vaso contendo um gômer cheio de maná (33), na casa de Deus, diante do Testemunho (34). Este recipiente seria guardado para as gerações (32) futuras. O escritor aos Hebreus mencionou a existência de “um vaso de ouro” de “maná” no “Santo dos Santos” (Hb 9.3,4). O texto bíblico não informa se a ordem de Deus foi dada neste momento ou mais tarde quando a arca do concerto foi construída. Presumimos que, perto do fim da vida, Moisés adicionou esta seção (32-36) ao Livro de Êxodo.50 O Testemunho (34) diz respeito aos Dez Mandamentos que também foram depositados na arca do concerto.

Para ficar registrado, Moisés afirmou que os filhos de Israel comeram maná até que chegaram aos termos da terra de Canaã. Esta afirmação não significa que não tinham outro tipo de comida no caminho, mas que sempre havia a provisão do maná. Josué registrou a cessação deste milagre depois de chegarem à terra da promessa (Js 5.10-12). O gômer e o efa (36) eram medidas de capacidade usadas no Egito, e esta nota era necessária porque somente o efa continuou sendo usado como medida em Israel.51 Um efa correspondia a cerca de 37 litros. O gômer seria, então, de aproximadamente 3,7 litros.

No capítulo 16, o alimento de Deus para Israel aponta para o Pão Vivo do Novo Testamento, “Cristo, o Nosso Maná”. 1) É dado aos famintos e perturbados, 1-3; 2) Torna-se a manifestação da glória de Deus, 4-12; 3) Satisfaz plenamente quem o colhe, 13-18; 4) É eficiente pela obediência cotidiana, 19-30; 5) Trata-se de experiência comemorada para sempre, 3134.

3. A Pedra em Refidim (17.1-7)

Israel prosseguiu a viagem do deserto de Sim, “fazendo suas paradas”

(1, ARA), ou seja, em etapas, até chegar a Refidim (ver Mapa 3), provavelmente Refaídi, vale não muito distante de Horebe (6). Este nome identifica a cadeia de montanhas que inclui o Sinai.52 A palavra Refidim

quer dizer “descansos ou lugares para descansar”.53 O povo estava sedento e esperava achar água neste lugar, mas não acharam nada. Sob qualquer aspecto, Deus não estava tornando as coisas fáceis.

Mais uma vez, o povo contendeu com Moisés, exigindo água (2). O fato de Moisés conhecer esta região pode ter levado os israelitas a pensar que ele deveria saber onde havia água. Mas não foi Moisés que escolheu conduzir Israel por este caminho. Ele era apenas o representante de Deus. Esta situação era para tentar (ou “testar”) ao Senhor. Deus não se mostrou satisfatório em todas as ocasiões? Não dava para confiar que Ele daria água? Moisés estava descobrindo que este povo era uma provação para sua paciência.

Sem ajuda divina, havia base segura para sentirem-se alarmados. A menos que encontrassem água, eles morreríam, como também os filhos e o gado (3). Não podemos culpá-los pela preocupação, mas onde estava a fé? Não tinham eles visto muitas manifestações do poder de Deus, suficientes para terem a certeza de que Ele não os decepcionaria? Alguns ainda estavam, no mínimo, hesitantes e logo poderíam provocar tumulto e influenciar toda a multidão. Era fácil tornarem-se perigosos.

Clamou Moisés ao SENHOR (4). Não havia atitude mais sábia a tomar que esta; as pessoas estavam prestes a apedrejá-lo. Moisés e, quem sabe, outros estavam dispostos a esperar o tempo de Deus, sabendo que o Senhor não os abandonaria. O Senhor pode demorar para, assim, fazer uma maior maravilha, como fez com Lázaro quando Jesus se deteve até o amigo morrer (Jo 11.20-23). Mas o que Moisés podería fazer com estes indivíduos revoltosos? Eles não estavam mais dispostos a esperar por Deus.

Misericordiosamente, Deus o instruiu sobre o que fazer. Ele tinha de passar adiante do povo com alguns anciãos (líderes nomeados) de Israel e com a vara de Deus na mão (5). Que consolo esta vara deve ter sido para Moisés! Com ela, ele realizou maravilhas.

Deus prometeu estar diante de Moisés sobre a rocha, em Horebe (6), provavelmente na mesma cadeia de montanhas do Sinai (ver nota 52 para inteirar-se de outra explicação). Quando o esforço humano fracassou, Deus

estava pronto para exercer seu poder. Moisés tinha de ferir a rocha da qual sairia água. O ato produziu água suficiente para satisfazer as necessidades deste grande exército de pessoas e animais. Deus sabia onde havia água e tinha o poder de fazer brotar fontes no deserto. Os anciãos foram testemunhas deste grande milagre.

Moisés chamou o lugar Massá e Meribá, “provação” e “contenção”, porque o povo estava em necessidade e forçou Deus a se manifestar (7). Nomes mais bonitos seriam dados a essas experiências, se o povo, sem censura e incredulidade, tivesse esperado pacientemente o tempo de Deus e o deixado agir!

Cristo é a Agua que extingue a sede espiritual do homem (Jo 7.37). Ele é a “pedra espiritual” da qual emana a “bebida espiritual” (1 Co 10.4). Essa “pedra” foi ferida para que a graça fluísse e alcançasse toda a humanidade (ver G1 3.1).

Nos versículos 1 a 7, vemos “Deus, Nossa Pedra”. 1) A Pedra é pedra de tropeço para os descrentes, 1-4; 2) A Pedra tem de ser ferida para que a graça flua, 5,6; 3) A Pedra satisfaz a sede de quem dela bebe, 6b; 4) A Pedra simboliza a cruz, emblema de vergonha, 7.

4. A Derrota dos Amalequitas (17.8-16)

a) A batalha (17.8-13). Enquanto ocorria o milagre da pedra, os amalequitas investiram contra os filhos de Israel (8), atacando os “fracos” da retaguarda que estavam abatidos e cansados (Dt 25.18). Considerando que o ataque aconteceu em Refidim (cf. 1), envolveu quem ainda não tinha chegado ao acampamento. Amaleque era descendente de Esaú (Gn 36.12,16), embora não fizesse parte de Edom como nação.54 A desconsideração dos amalequitas para com Deus e o ataque ao seu povo colocou-os sob o julgamento de Deus.

Josué (9), mencionado aqui pela primeira vez, era conhecido por Oséias (Nm 13.16), mas Moisés o chamou “Jeosué” (contraído para Josué), que

significa “Jeová é Salvação”.56 Moisés incumbiu este seu ajudante (24.13, “seu servidor”) a formar um exército para lutar contra o inimigo. Este exército muniu-se com o armamento dos egípcios mortos (14.30,31), e Josué liderou o exército no confronto com o inimigo (10).

A batalha ocorreu no vale, porque Moisés subiu ao cume do outeiro com a vara de Deus (9), levando consigo Arão e Hur (10). Hur, que ajudou Arão quando Moisés subiu ao monte (24.14), era avô de Bezalel (31.2), o artesão habilitado para construir o Tabernáculo. De acordo com Josefo, a tradição judaica identifica Bezalel como o marido de Miriã.66

Quando Moisés levantava a sua mão (11), com a vara estendida (9), Israel prevalecia, mas quando o braço ficava cansado, Amaleque prevalecia. Arão e Hur sustentaram as (12) mãos de Moisés, colocando uma pedra para ele se sentar e segurando-lhe os braços até o fim do dia. Então Josué, sob as ordens de Deus, “desbaratou a Amaleque” (ARA) e seus exércitos com a espada (13).

A vara de Deus indica nitidamente a importância da oração e da fé. A vitória na batalha contra Satanás ocorre quando a oração é eficaz. O povo de Deus, quando ora a Deus com fé, derrota as forças invisíveis de Satanás. O apoio de outras pessoas na oração ajuda a obter esta vitória. Os líderes responsáveis na obra de Deus não seriam bem-sucedidos sem o sustento da oração dos crentes.

“A Oração”: 1) E necessária quando o inimigo ataca, 8; 2) Torna-se poderosa no monte de Deus, 9,10; 3) Precisa do sustento de outras pessoas, 11,12; 4) Prevalece na vitória eficaz, 13.

Nos versículos 8 a 16, temos o tema “A Oração Traz Vitória”. 1) A obra de Deus prospera pela oração, 8-11; 2) Há necessidade de união na oração, 12,13; 3) Os altares testificam para as gerações futuras que Deus responde a oração (G. B. Williamson).

b) O memorial (17.14-16). A batalha com os amalequitas não terminara, pois have- e-ria uma vitória final. A expressão num livro (14; “no livro”,

ATA) indica que os livros de Moisés já estavam em curso de composição.57 O sucessor de Moisés também tinha de conhecer o plano de Deus, por isso Deus ordenou que Moisés “o lesse em voz alta para Josué” (14, Moffatt).

No fim, Amaleque seria aniquilado.